Everaldo Leite

14/01/2014

O DESESPERO DA FELICIDADE

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 3:32 PM
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ImageA felicidade é uma finalidade desde os tempos mais antigos do passado, mas os meios para consegui-la nem sempre foram os mesmos. Na Grécia antiga ela se chamava eudaimonia, de critérios doutrinários, e os meios para alcança-la dependiam dos dons que os deuses concediam a cada ser humano. Na Idade Média essa ventura, pode-se assim dizer, não era alcançada nesta vida, mas numa próxima existência, além da vida, a depender, é claro, da retidão do cidadão enquanto encarnado. Enfim, foi a modernidade quem trouxe uma nova forma de se buscar a felicidade, especialmente através do trabalho, da renda e do consumo.

Ora, sem trabalho e renda não há felicidade. Sem consumo, também não. O ser humano, portanto, passou, nos últimos trezentos anos, a ter objetivos bem claros durante sua vida e a pretender alcança-los, mesmo que somente para criar novos objetivos, alcançá-los, e assim sucessivamente. Os seus desejos se tornaram ilimitados e suas vontades insaciáveis, talvez por um instinto natural de melhorar progressivamente sua condição de vida, talvez porque a própria produção industrial de novos bens o levasse a tais novas sensações de satisfação e de busca destas. Quem sabe, as duas causas juntas, quiçá o marketing empresarial. Aparentemente, mesmo depois dos economistas se enfastiarem de expor sobre o assunto, o entendimento de escassez escapa às pessoas, como escapava ao perdulário Karl Marx, ou se conserva reprimido no inconsciente, para o deleite de marqueteiros, como Phillip Kotler.

Aliás, os meios para a felicidade podem advir também de incentivos governamentais, notadamente quando suas ações políticas geram orgias de consumo e de empréstimos. Um exemplo claro é o Brasil, onde a propensão marginal a poupar é menos do que uma ilusão enquanto a propensão marginal a consumir é uma suprema potência diante de uma migalha qualquer de renda acrescida ou perante um crédito fácil e barato. Não obstante a negação à prudência, entre 2010 e 2012 pôde-se verificar empiricamente entre os brasileiros a maior taxa de “felicidade interna bruta” (quando, sem duplo sentido, o Brasil virou um Butão) desde muitas décadas, por consequência de estímulos públicos à economia nacional, baseados last but not least no fortalecimento do consumo – tributos reduzidos – e nas políticas de aumento artificial da renda via salário mínimo e programas assistencialistas. Carro novo, fogão, geladeira, casa nova. Foi muita felicidade. Foi.

De fato, a felicidade vem se tornando um desígnio determinante para a espécie, operando sobre o agir, o fazer e o conhecer humanos. A indústria não produziria o Prozac se o mercado não o exigisse. Nem o Viagra, nem o Jack Daniels. Essa felicidade objetiva, ademais, tem atravessado as fronteiras dos valores arraigados das sociedades moralistas, como hoje se pode observar na busca nervosa e crescente de indivíduos ou de grupos peculiares por satisfações insólitas e extravagantes. São casos em que a busca da felicidade pelo outro pode vir a se tornar motivo de conflito social ou, subsequentemente, razão a ser defendida por políticos, partidos ou associações particulares. De tal modo, alguns tipos de felicidade podem ser uma finalidade não tão fácil de ser alcançada. Mas voltemos ao essencial das ocorrências habituais não excêntricas.

Na prática, a felicidade nunca foi considerada uma virtude, mas pode vir a se tornar um vício, espontaneamente. Como os mortais não se encontram além do bem e do mal, estão ainda sob a égide de uma natureza humana que prefere fortemente o prazer ao desconforto, podendo alguns, pelo exagero irrefletido, fazer desta busca a única veemência aceitável para si. Sem embargo, não é impossível se dizer que poderemos, em algum momento, viver – se já não estamos vivendo – sob o crivo de um super-hedonismo “pró-felicidade” que no longo prazo nos fará improdutivos, 1) induzindo jovens a não sair da casa dos pais no momento certo, prolongando indefinidamente as benesses do lar paterno; 2) lançando cidadãos às aquisições desenfreadas, anteriores aos ganhos equivalentes e 3) invertendo prioridades, submergindo a sociedade em desventuras de longo prazo em detrimento de imperativos imediatos etc. Vejamos. A felicidade moderna, materializada no consumo, se é algo bom, é alguma coisa a ser dosada pelos indivíduos e, no afã de se gerar uma sociedade boa, uma lição a ser elucidada pelos humanistas das ciências sociais, da economia, da filosofia etc.

Sim, o desespero da felicidade pode ser um objeto da Economia, isto é evidente. Por sua vez, acredito que o desafio atual é pensá-lo além do utilitarismo e das ordens sociais do tipo socialista, pois estas formas de se ponderar sobre o tema se situam obviamente nas agendas de pensadores do século dezenove e não nos pleitos “pós-modernos” do atual século. Ou, para finalizar com uma especulação, podemos acreditar que o capitalismo e o individualismo são, pura e simplesmente, a melhor resposta para a busca da felicidade, com todas as demandas materiais e imateriais devendo ser atendidas pelo mercado?

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