Everaldo Leite

28/08/2014

O USO DO CONHECIMENTO NA SOCIEDADE E OS LIMITES DA AUTORIDADE

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 12:08 PM

Idade Média

Nas Leis, um trabalho de filosofia política aplicada, escrita por Platão no final de sua vida, o caráter despótico do projeto platônico aparece de forma evidente, onde a minoria pensante legisla e o homem comum acata. Nessa perspectiva a sociedade seria submetida a um processo de condicionamento e manipulação ideológica visando mantê-la na condição de rebanho em perene estado de cooperação com as deliberações dos governantes. Nas palavras de Platão:

O principal é que ninguém, homem ou mulher, jamais fique sem um funcionário oficial que o supervisione, e que ninguém adquira o hábito mental de dar qualquer passo, seja a sério ou jocosamente, por iniciativa própria […] em suma, trata-se de treinar a mente para que ela nem mesmo conceba a possibilidade de agir individualmente ou saiba como fazê-lo (Platão, p. 942).

De fato, desde o advento do Estado moderno não foram desprezíveis o número de experiências que ambicionavam submeter os indivíduos da sociedade àquelas aspirações platônicas de separar o homem comum, subjugado ao “planejamento” do Estado, do homem pensante, destinado a ocupar espaço na elite que delibera sobre os rumos da comunidade. Com o consórcio entre Estado e grandes corporações, desde o século XIX, este entendimento passou a estar ainda mais presente na configuração política, sendo um dos seus artifícios mais empregados a “verdade” instituída pelo conhecimento lógico-técnico-científico ou pelo conhecimento histórico, e como este conjunto de conhecimentos é utilizado pela autoridade para alcançar determinada finalidade despótica. Lamentavelmente, à modernidade subjaz um processo mascarado de poder que impõe, no âmbito da superestrutura, de um lado, a vontade de governo dos “donos da verdade”, e de outro, a entrega à subserviência de toda uma classe civil.

Hannah Arendt lembra, em A Mentira na Política, primeiro ensaio de Crises na República, que a dissimulação da elite governamental precisa encontrar aliados importantes no campo do conhecimento, os “resolvedores de problemas”, atraídos para o governo das universidades e dos denominados Think Tanks – organizações de pesquisas e estudos –, contando com suas paixões pela racionalidade – acima do “sentimentalismo” – e, especialmente, pela teoria, “o mundo do esforço mental puro” (Arendt, 2010, p. 20). Esses intelectuais são, portanto, a chave para legitimar os macroprogramas do governo e estabelecer, pela lei, o bem a ser perseguido pela consciência civil. De fato, se assim agem desinteressadamente, para Arendt, esses homens,

… dificilmente terão a paciência do naturalista para esperar que as teorias e as explanações hipotéticas sejam aprovadas ou negadas pelos fatos. Em vez disso, estarão mais tentados a ajustar sua realidade – que é antes de tudo um produto do homem, e portanto poderia ser diferente – à sua teoria, ficando deste modo mentalmente livres de sua contingência desconcertante (Arendt, 2010, p. 20).

A contingência é tratada, destarte, como acidental, mas a realidade nunca se apresenta com algo tão simples como premissas para conclusões lógicas. Arendt acredita que “o que os resolvedores de problemas têm em comum com os verdadeiros mentirosos é o empenho em se livrarem dos fatos, e a confiança em que isto seja possível por causa da contingência inerente dos fatos” (Arendt, 2010, p.21). Ora, a soma das minudências na sociedade, constituídas nos e entre os indivíduos, é maior que a soma de todas as causas conhecidas pelos cientistas sociais e intelectuais. Em Que é Liberdade, ensaio que faz parte de Entre o Passado e o Futuro, Arendt expõe corretamente que o teste da causalidade – a previsibilidade do efeito se todas as causas forem conhecidas – não pode ser aplicado ao âmbito dos assuntos humanos, o que significa, em suas palavras, que:

não estamos capacitados a chegar algum dia a sequer conhecer todas a causas que entram em jogo, e isso, em parte, pelo simples número de fatores implicados, mas também porque os motivos humanos, distintamente das forças da natureza, ainda são ocultos de todos os observadores, tanto da inspeção pelo nosso próximo como da introspecção (Arendt, 2012, p. 189).

Essa questão do uso do conhecimento na sociedade já era uma preocupação de John Stuart Mill, no século XIX, ao abstrair acerca da ingerência das leis e dos governos sobre a liberdade dos indivíduos. Mill inicia Sobre os Limites da Autoridade da Sociedade sobre o Indivíduo – capítulo IV do ensaio Sobre a Liberdade – questionando qual o limite correto para a soberania do indivíduo sobre si mesmo, e quanto da vida humana deve ser atribuído à individualidade, e quanto à sociedade. Para ele deveria prevalecer a perfeita liberdade, legal e social, quando a conduta do indivíduo não afeta os interesses de qualquer outro senão ele próprio, “ou não precisa afetar os interesses de outras pessoas, a não ser que elas assim o queiram” (Mill, 2011, p. 114). Em sua concepção, essa liberdade[1] não é uma questão de indiferença egoísta, visto que é necessário um grande acréscimo de esforço desinteressado para gerar o bem dos outros. Na sua concepção moral, “os seres humanos têm a obrigação de se ajudar mutuamente a distinguir as coisas melhores das piores, e de se encorajarem a escolher as primeiras e evitar as segundas” (idem, pp. 114-115). Com efeito, importa à sociedade – aquela que busca seu desenvolvimento – propalar em seu meio tais conhecimentos, notadamente para comparação entre uma condição pior e outra melhor[2].

Desta forma, Mill acredita em regras e relações gestadas e desenvolvidas no seio da sociedade, nas relações possíveis entre os indivíduos, e na formação espontânea do conhecimento útil. Não obstante, para ele, ninguém tem o direito sobre as decisões do outro, devendo respeitar os interesses alheios, exceto no que diz respeito à conduta para com os outros. Stuart Mill afiança que, “no que diz respeito aos seus próprios sentimentos e circunstâncias, o homem e a mulher mais comuns têm meios de conhecimento que ultrapassam incomensuravelmente os que qualquer outra pessoa [ou autoridade, ou governo] pode ter” (idem, p. 115). O que Mill quer dizer é que, de modo sistemático, o conhecimento acerca dos interesses próprios dos indivíduos se encontra disperso entre os indivíduos, de tal forma que não se pode conhecê-lo em detalhes e saber aquilo que será melhor para eles individualmente[3].

Neste mesmo sentido, o pensador contemporâneo Thomas Sowell, em Conflito de Visões: origens ideológicas das lutas políticas, explica que “o conhecimento significa predominantemente experiência – transmitida socialmente de maneira amplamente desarticulada”, isto é, uma “experiência social de muitos, incorporada ao comportamento, aos sentimentos e aos costumes, mais do que a razão especialmente articulada de poucos, por mais talentosas e inteligentes que essas poucas pessoas possam ser” (Sowell, 2012, pp. 49; 51). A interposição da sociedade, por meio de qualquer tipo de autoridade, para contradizer a opinião e objetivos de alguém em questões que dizem apenas respeito a esse indivíduo acaba se baseando no uso de um conhecimento circunscrito e impotente ou em suposições gerais, que podem estar absolutamente equivocadas, “e mesmo que estejam certas, é tão provável que sejam bem-aplicadas como mal-aplicadas em casos individuais, por pessoas não mais bem familiarizadas com as circunstâncias de tais casos do que as que olham para ele de fora” (Mill, 2011, p. 116).

Quanto aos limites da autoridade intelectual no uso do conhecimento na sociedade, Sowell ainda se preocupa, em Os Intelectuais e a Sociedade, em compreender como o comportamento dos intelectuais afeta a sociedade na qual eles vivem. Para ele, embora existam importantes e rigorosos princípios intelectuais, os quais abrangem alguns campos particulares em que alguns intelectuais se fazem especialistas, o fato é que ao se manifestarem como “intelectuais públicos”, propalando ideias e agendas para um público que extrapola o círculo profissional limitado de seus colegas intelectuais, o rigor pode ser comprometido, podendo ocasionar ponderações mais genéricas, mais ideologicamente carregadas e mais politicamente orientadas. Sowell acredita que, não raramente, intelectuais cometem um grande equívoco, que é o de supor que uma habilidade intelectual ímpar, dentro de um segmento em particular, deriva sabedoria e moralidade universal superiores. Na sua perspectiva os padrões intelectuais estão sujeitos aos desvios e às violações perpetrados pelos membros da ocupação intelectual, especialmente quando os intelectuais se dedicam a exercer seu papel de formadores de opinião, emitindo pronunciamentos sobre a sociedade e exortando essa ou aquela política governamental (Sowell, 2011, p. 31).

De acordo com Sowell, a forma como o conhecimento é usado por muitos intelectuais limita que tipo de informação verificada e analisada será considerada conhecimento. Em suas palavras, “embora o tipo especial de conhecimento associado aos intelectuais seja geralmente mais valorizado e receba mais prestígio social, não é certo, de forma alguma, que seja, necessariamente, mais significativo em seus efeitos no mundo real” (Sowell, 2011, p. 33). Muitas decisões políticas, econômicas e sociais, por exemplo, se encontram crucialmente dependentes do tipo de conhecimento mundano que os intelectuais talvez desdenhem, não o considerando um conhecimento genuíno no sentido que geralmente atribuem ao termo. Para Sowell, parte significativa do conhecimento especial que se concentra no universo dominado pelos intelectuais pode não ter o mesmo peso e as mesmas consequências que tem o conhecimento muito mais mundano e singelo que está espalhado entre a população em geral. Em seu conjunto, o conhecimento mundano pode sobrepujar em muito o conhecimento especial das elites tanto na quantidade quanto em consequências. Se, por um lado, o conhecimento especial dos intelectuais se estrutura quase invariavelmente como conhecimento articulado, por outro lado outros tipos de conhecimento não precisam estar articulados entre si nem mesmo precisam estar conscientemente articulados (Sowell, 2011).

Consoante à Hannah Arendt, Sowell também acredita que, quando tanto o conhecimento especial quanto o conhecimento mundano são contemplados e tidos como conhecimento genuíno, torna-se duvidoso se mesmo a pessoa mais culta do planeta tem sequer uma pequena fração de todo o conhecimento acumulado do mundo ou mesmo uma pequena fração do conhecimento mais significativo de uma sociedade qualquer. Não é somente com o apoio dado às políticas e agendas particularmente desastrosas que os intelectuais revelam os perigos embutidos em suas decisões e seus favorecimentos. Toda a abordagem sobre a condução da sociedade – a própria ideologia que comungam – tem em geral refletido uma concepção fundamentalmente errada sobre o conhecimento e sua concentração ou dispersão. Sowell afirma que muitos intelectuais e seus seguidores ficam excessivamente impressionados pelo fato de as elites altamente educadas – eles próprios – terem muito mais conhecimento per capita – no sentido de conhecimento especial – do que a população em geral. A partir dessa noção, segundo esse pensador americano, é necessário apenas um pequeno passo para que legitimem as elites educadas como guias superiores – do modo como aspirava Platão –, declarando que têm o direito de impor o que deve e não deve ser feito na sociedade. Para Sowell eles geralmente ignoram o fato crucial de a população em geral ter uma quantidade muito superior de conhecimento total – no sentido mundano – do que têm as elites, mesmo quando tal conhecimento se encontra espalhado em fragmentos, individualmente insignificantes, dentre um vasto contingente populacional (Sowell, 2011).

Em seu ensaio O Uso do Conhecimento na Sociedade, o economista austríaco Friedrich August von Hayek expõe que o conhecimento das circunstâncias, do qual se deve fazer uso, nunca existe de um forma concentrada ou integrada, e sim somente “como bits dispersos daquele conhecimento incompleto e frequentemente contraditório que todos os indivíduos isolados possuem”. Daí que o problema sobre como utilizar, da melhor maneira possível, o conhecimento, inicialmente disperso entre todas as pessoas, se tornou uma das principais questões da política. Aqui, incidentalmente, o exemplo econômico é essencial. Um planejamento deve ser feito de forma centralizada, por uma única autoridade e cobrindo todo o sistema econômico, ou deve ser dividido entre vários indivíduos? Qual desses sistemas tenderá a ser mais eficiente dependerá principalmente do uso mais ou menos pleno que farão do conhecimento existente. Se se pressupõe que uma autoridade composta de experts devidamente escolhidos estará em melhor posição, isto é porque o conhecimento científico ocupa agora um lugar tão proeminente na imaginação pública que a tendência é esquecer que não é o único tipo relevante. Nas palavras de Hayek:

Pode-se admitir que, na medida em que o conhecimento científico está envolvido, um corpo de experts devidamente escolhidos pode estar em melhor posição para comandar todo o melhor conhecimento disponível – embora isso esteja apenas deslocando a dificuldade para o problema de selecionar os experts (Hayek, 2013, p. 155).

Para o austríaco o conhecimento científico não é a soma de todo o conhecimento, pois é preciso dizer que há, além de toda dúvida, um corpo de conhecimento muito importante, mas não organizado, que não poderia ser chamado científico no sentido de conhecimento de regras gerais: o conhecimento das circunstâncias particulares de tempo e espaço. O pensador austríaco afirma que uma das razões pelas quais os economistas são cada vez mais suscetíveis a esquecer das frequentes, porém pequenas, mudanças que compõem todo o quadro econômico é a preocupação crescente com os agregados estatísticos, que revelam muito mais a estabilidade do que os movimentos do detalhe. Entretanto, a comparativa estabilidade dos agregados não pode ser vista a partir da “lei dos grandes números” ou da compensação mútua das mudanças aleatórias, pois o número de elementos com os quais se tem que lidar não é grande o suficiente para que tais forças acidentais produzam estabilidade. Portanto, o tipo de conhecimento com que Hayek se preocupa “é o conhecimento de um tipo que pela própria natureza não pode entrar nas estatísticas e, portanto, não pode ser transmitido para nenhuma autoridade central em relatórios estatísticos” (idem, p. 157), o conhecimento humano apresenta um inevitável componente de indeterminação e imprevisibilidade. A consequência disso é que o futuro não apenas é difícil de ser previsto, mas, principalmente, é essencialmente imprevisível e, em função dessa inescapável incerteza, todas as ações humanas intencionalmente levadas a cabo produzem efeitos involuntários, que não podem ser calculados, previstos ou esperados e que tanto podem gerar benefícios não esperados como produzir custos não desejados.

De fato, as obstâncias do uso do conhecimento observadas nessa dimensão da economia podem ser atribuídas analogamente a outras dimensões sociais, visto que, na premência de políticas totalizadoras, intelectuais públicos, partidários e adesistas fraudam soluções em nome da “gestão pública” e em detrimento da verdadeira “opinião pública”, aquela que chamamos de “senso comum”. O prestígio das teorias, mesmo que elaboradas desinteressadamente a partir dos desdobramentos naturais da ciência, não permite ou recomenda o seu uso fidedigno como forma de conhecimento irrestrito da sociedade e nem sua admissão adequada e imediata nas deliberações políticas. Quanto aos métodos históricos, cabe aqui ainda uma breve reflexão de Hannah Arendt acerca de suas tentativas de alcançar um conhecimento irrevogável para uso político. Para ela historiadores estabelecem conhecimento a partir de eventos que ocorrem somente uma vez, daí que “essa novidade pode ser manipulada, caso o historiador insista na causalidade e pretenda ser capaz de explicar os eventos segundo uma cadeia causal que acaba por ocasioná-lo”. Ora, o historiador se comporta, portanto, como um profeta do passado, “e a única coisa a separá-lo dos legítimos dotes proféticos parecem ser as deploráveis limitações físicas do cérebro humano, que infelizmente não consegue abranger e combinar de modo correto todas as causas operantes ao mesmo tempo” (Arendt, 2008, p. 341). O conhecimento histórico não é correspondente à realidade em sua complexidade, portanto, é de uso muito limitado.

Enfim, o objetivo desta Comunicação foi apresentar um pouco sobre o discurso do uso do conhecimento na sociedade e, em relação a este, verificar os limites inequívocos da autoridade intelectual, política etc. na elaboração de soluções sociais. Para tanto, a abordagem lançou mão de extratos selecionados do pensamento de John Stuart Mill, Thomas Sowell, Friedrich August von Hayek e Hannah Arendt, advertindo-se, portanto, que as ideias descritas aqui não passam de um breve esforço de convergência, não abrangendo, obviamente, a complexidade e a intencionalidade das obras dos autores. Não tendo, destarte, a finalidade de esgotar o assunto, sendo na melhor das hipóteses uma acanhada contribuição introdutória.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARENDT, Hannah. Compreender: Formação, exílio e totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: UFMG, 2008.

ARENDT, Hannah. Crises da República. São Paulo: Perspectiva, 2010.

ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro. 7ª ed. 1ª reimp. São Paulo: Perspectiva, 2013.

HAYEK, Friedrich August von. O Uso do Conhecimento na Sociedade. In: Mises: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia. v.1, número 1. São Paulo: IMB, 2013.

MILL, John Stuart. Sobre a Liberdade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

SOWELL, Thomas. Conflito de visões: origens ideológicas das lutas políticas. São Paulo: É Realizações, 2012.

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. São Paulo: É Realizações, 2011.

[1] “O tema deste ensaio não é a chamada liberdade da vontade, tão lamentavelmente contraposta à mal denominada doutrina da necessidade filosófica; mas sim a liberdade civil, ou social: a natureza e os limites do poder que pode ser legitimamente exercido pela sociedade sobre o indivíduo” (Mill, 2011, p. 25).

[2] “É melhor ser um humano insatisfeito do que um porco satisfeito; é melhor ser Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito. E se o tolo, ou o porco, tem uma opinião diferente, é porque eles só conhecem o seu próprio lado da questão. O outro partido da comparação conhece ambos os lados” (Mill. Utilitarismo, p. 57).

[3] Este entendimento de John Stuart Mill será a base, no século XX, para a concepção do austríaco Friedrich August von Hayek acerca do uso do conhecimento na sociedade.

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16/07/2014

DAVID GILMOUR

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 2:58 PM

David Gilmour“Não há um lado escuro da lua, na verdade ela é toda negra”. Esta sentença, extraída de The Dark side of the moon, tão inequívoca aos profissionais da astronomia, estremeceu grande parte da juventude engajada da década de 1970, abduzindo-a definitivamente para dentro da realidade de nosso mundo não ideal. Não era o fim das ideologias, mas a Segunda Grande Guerra, os campos nazistas de extermínio, a bomba em Hiroshima, os crimes de Stálin, a Guerra do Vietnã, a viagem à lua, o Maio de 68, Woodstock, todos esses eventos finalmente puderam terminar de promover a ruptura a qualquer resquício de romantismo ingênuo ou de retorno às tradições. Não que se impetrasse um niilismo estrutural numa civilização ocidental há muito tempo em decomposição, mas ajudou a destroçar as últimas resistências alienadas dos domínios mentais e culturais, além de, ao mesmo tempo, introduzir a ideia de desordem absoluta, o caos literal, num espectro paradoxal de perfeita sintonia ecológica.

O cinismo, como mensagem de uma geração, como algoritmo de uma transformação, devastou as possibilidades alternativas e extinguiu o que ainda havia de esperanças tontas nos meios da grande arte. Deve-se depreender disto os motivos das frustrações desde os então recém-chegados bossanovistas aos retardatários de todo tipo e saudosistas. Mas foram os elementos ávidos por atenção, as guitarras, as baterias, os contrabaixos, os teclados, que enredaram as novas formas onde a subversão havia sido elevada a categoria de deusa e sua cornucópia de drogas, amor e morte prematura. A fuga da política “suja”, a aversão ao que não se traduzisse em liberdade, o asco à autoridade, a ameaça do apocalipse assegurado pela Guerra Fria, as contiguidades de uma sociedade hipócrita e covarde, o próprio show business, tudo estava em jogo e, consequentemente, no banco dos réus dos herdeiros legítimos da beat generation. O ímpeto juvenil questionava a si mesmo: Where has the feeling gone? – para onde o sentimento foi?

O desmoronamento trágico de certa forma foi tragado pelo pop, pela iconografia contemporânea e pelas forças das várias dimensões interessadas nesta absorção. Evidentemente, todos cansaram de ser loucos e preferiram se agarrar nos corrimãos de outras loucuras. Entretanto, quaisquer tentativas de apego aos modos tradicionais e românticos se tornaram improfícuas, senão caricatas. A argumentação artística andou em círculos, perdida em modelos reutilizados ad nauseam e nos convenceu em sua gastura de que o futuro é o da música de uma nota só harmonizada por um artigo sem substantivo que o acompanhe. Neste sentido, como afirma David Gilmour: now frontiers shift like desert sands – agora fronteiras mudam como areias do deserto, não se referindo apenas aos limites físicos dos países, mas notadamente aos contornos indóceis das veleidades humanas, na medida em que as esperanças de uns são as desilusões de outros, e na medida em que as dúvidas são frequentemente vencedoras sobre as verdades. Destarte, enquanto a poética grandiloquente do fim de toda aquela idiotice já se solidifica em museus, a pequena momice concebe alguma imitação escrava.

Everaldo Leite é mestrando em Filosofia.

04/06/2014

STUART MILL: SOBRE OS LIMITES DA AUTORIDADE DA SOCIEDADE SOBRE O INDIVÍDUO

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 6:56 PM

Stuart Mill inicia Sobre os Limites da Autoridade da Sociedade sobre o Indivíduo – capítulo IV do ensaio Sobre a Liberdade – questionando qual o limite correto para a soberania do indivíduo sobre si mesmo, e quanto da vida humana deve ser atribuído à individualidade, e quanto à sociedade. Para Mill não existe contrato algum que fundamente as obrigações sociais, mas afirma que aqueles que se beneficiam da proteção da sociedade tem o dever da retribuição, ao mesmo tempo em que cada indivíduo deve assumir certa linha de conduta para com os outros. A saber:

Esta conduta consiste, em primeiro lugar, em não prejudicar os interesses dos outros; ou, melhor dizendo, certos interesses, que, por provisão legal explícita ou por entendimento tácito, têm de ser considerados direitos; e consiste, em segundo lugar, em cada pessoa arcar com a sua parte (a ser estabelecida segundo um princípio equitativo) de trabalhos e sacrifícios necessários para defender a sociedade ou os seus membros de dano ou moléstia (Mill, 2011 p. 114).

A sociedade impõe tais condições aos indivíduos, entretanto se atém também aos efeitos das condutas destes na sociedade como parâmetro para quaisquer punições que se façam necessárias. Quando não há violação dos seus direitos constituídos os indivíduos – aqueles que cometeram ato danoso para outros – podem ser punidos por meio da opinião, pois a sociedade tem jurisdição sobre aqueles, ficando “aberta à discussão a questão de saber se a interferência promove ou não o bem-estar geral”. Segundo o autor deve prevalecer a perfeita liberdade, legal e social, quando a conduta do indivíduo não afeta os interesses de qualquer outro senão ele próprio, “ou não precisa afetar os interesses de outras pessoas, a não ser que elas assim o queiram” (idem).

Para Mill tal liberdade[1] não é uma questão de indiferença egoísta, visto que é necessário um grande acréscimo de esforço desinteressado para gerar o bem dos outros: “Os seres humanos têm a obrigação de se ajudar mutuamente a distinguir as coisas melhores das piores, e de se encorajarem a escolher as primeiras e evitar as segundas” (idem, pp. 114-115). Não por acaso, estas motivações mais elevadas, ou mais nobres, são escolhas da sociedade que, para ele, deveriam ir ao encontro de sua ideia essencial de que alguns prazeres podem ser considerados moralmente superiores a outros[2]. Com efeito, importa à sociedade que busca seu desenvolvimento propalar em seu meio tais conhecimentos, notadamente para comparação entre uma condição pior e outra melhor[3].

Deviam estar sempre a incentivar-se mutuamente para exercitarem cada vez mais as suas faculdades superiores, e para dirigirem cada vez mais os seus sentimentos e objetivos para objetos e reflexões sábias e não tolas, exaltantes e não degradantes (Mill, 2011 p. 115).

Não obstante, para Mill, ninguém tem o direito sobre as decisões do outro, devendo respeitar os interesses alheios, exceto no que diz respeito à conduta para com os outros. “No que diz respeito aos seus próprios sentimentos e circunstâncias, o homem e a mulher mais comuns têm meios de conhecimento que ultrapassam incomensuravelmente os que qualquer outra pessoa pode ter” (idem). O que Mill quer dizer é que o conhecimento acerca dos interesses próprios dos indivíduos se encontra disperso entre os indivíduos, de tal forma que não se pode conhecê-lo em detalhes e saber aquilo que será melhor para eles individualmente[4]. A interposição da sociedade para contradizer a opinião e objetivos de alguém em questões que dizem apenas respeito a esse indivíduo acaba se baseando em suposições gerais, que podem estar absolutamente equivocadas, “e mesmo que estejam certas, é tão provável que sejam bem-aplicadas como mal-aplicadas em casos individuais, por pessoas não mais bem familiarizadas com as circunstâncias de tais casos do que as que olham para ele de fora” (idem, p. 116).

As regras, sendo cumpridas, apontam para certezas entre as pessoas na sociedade, porém a espontaneidade do indivíduo[5] deve prevalecer. “Todos os erros que é provável que cometa indo contra conselhos e avisos são em muito contrabalanceados pelo mal de permitir [a outras pessoas] que a forcem a fazer o que consideram ser bom para elas” (idem). Em termos gerais, para Mill, o “juízo desfavorável” da sociedade sobre as inconveniências de alguém, em função de suas livres escolhas, é o único a que um indivíduo deve estar sujeito por aquela conduta que diz respeito ao seu próprio bem, mas que não afeta os interesses dos outros nas suas relações com ela (não constitui maldade). Os deveres para com o próprio indivíduo não são socialmente obrigatórios, a não ser que as circunstâncias os tornem concomitantemente deveres para com os outros.

Serão os atos danosos “completamente imorais” e os “vícios morais” – “que constituem um caráter moral mau e detestável” – que requererão tratamento distinto. Se uma pessoa infringir as regras necessárias para a proteção de outros, individual ou coletivamente, as consequências negativas desse ato recairão sobre outros, sendo, portanto, a sociedade provocada a retaliar, tendo “de lhe infligir dor com o objetivo expresso de a castigar, e tem de se certificar de que o castigo é suficientemente severo” (ibidem, p. 120). Se alguém, pela má conduta, infringe uma obrigação distinta e atribuível para com o outro, a questão deixa de dizer respeito ao indivíduo da ação e se torna passível de punição. Quer dizer, havendo dano ou risco de dano claro se retira a questão do campo da liberdade e o coloca no da moralidade ou da lei. Todavia,

não se trata aqui (pode dizer-se) de cercear a individualidade, ou impedir o teste de novas e originais experiências de vida. As únicas coisas que se procura prevenir são as que foram testadas e condenadas desde o princípio do mundo até hoje; coisas que a experiência mostrou não serem úteis ou adequadas para a individualidade de qualquer pessoa (Mill, 2011, p. 121).

Para Mill a sociedade possui meios para elevar os seus membros mais fracos ao padrão normal de conduta racional, transmitindo a cada geração a experiência necessária para manter a sociedade boa ou deixá-la melhor. Através da educação, da opinião dominante (bons exemplos) e pelos castigos “naturais”, a sociedade possui ferramentas que superam o “poder de emitir ordens e impor obediência em relação a assuntos que só dizem respeito ao próprio [indivíduo]” (idem, p. 123). Destarte, Mill defende a educação pública para os pobres. Para ele existe, neste sentido, a necessidade de uma dupla ação, conduzida ao mesmo tempo para sua inteligência moral e para sua pobreza: “Uma educação nacional eficaz das crianças da classe trabalhadora era a primeira coisa necessária; concomitantemente, era preciso um sistema de medidas que acabasse com a pobreza extrema durante toda uma geração” (Mill apud Hunt, 2005, p. 188).

A questão fundamental para John Stuart Mill é a de que a interferência pública na conduta dos indivíduos – aquela que só diz respeito ao próprio –, quando interfere efetivamente, provavelmente será de forma errada, e no lugar errado. Nas interposições na conduta pessoal o público, em regra, se preocupa com o disparate do agir ou sentir diverso do seu, que Mill diz ser um padrão de juízo apresentado como se fosse um preceito da religião ou da filosofia. Assim, abusos grosseiros à liberdade da vida privada se tornam possíveis, não sendo raras as opiniões que defendem que o público “deve ter um direito iluminado não apenas para proibir por lei tudo o que acha errado, mas também para, visando atacar tudo o que pensa errado, proibir um sem número de coisas que aceita serem inocentes” (Mill, 2011, p. 130). O autor se preocupa obviamente com a sensibilidade do poder legislador face às opiniões moralistas e religiosas, que partem de um tipo de conjectura da qual se pode apreender que toda questão privada está potencialmente sob o juízo público e poderá ser restringida por lei.

Um tipo de teoria de “direitos sociais” que provavelmente nunca tinha sido antes claramente formulada, e que consiste em que nada menos que isto: cada indivíduo tem o direito social absoluto de que todos os outros ajam como ele próprio deve agir; e quem se desviar disto no menor pormenor viola o meu direito social, e tenho justificação para exigir da legislatura que a ofensa seja erradicada (Mill, 2011, p. 132).

Para Mill este é um princípio mais ameaçador do que qualquer interferência particular na liberdade, pois é uma “doutrina que atribui a todos um interesse adquirido na perfeição moral, intelectual e até física de todos os outros, a ser definida por cada queixoso segundo o seu próprio padrão” (idem). A ameaça é a de que, tornada regra, passa a ser um direito efetivo, e ter um direito, para Mill, é “ter algo cuja posse deve ser defendida pela sociedade” (Mill, 2005, p. 95). Ademais, num longo prazo, os indivíduos deixariam de ser guardiões seguros de seus próprios direitos e interesses, sendo incapazes de conduzir seus próprios assuntos, subvertendo um princípio importante da sociedade livre em desenvolvimento. Mill reflete um pouco mais sobre isto em seu ensaio Considerações sobre o Governo Representativo, quando afirma que

uma condição inerente aos assuntos humanos é a de que nenhuma intenção, por mais sincera que seja, de proteger os interesses de outros pode tornar seguro ou salutar amarrar-lhes as mãos. Ainda mais obviamente verdadeiro é o fato de que apenas por suas próprias mãos podem as pessoas promover melhorias positivas e duráveis em suas condições de vida (Mill, 1981, p.33).

Pelo parâmetro do grau de liberdade, segundo Mill, pode-se verificar que as melhores comunidades – as mais isentas de crimes e de injustiças sociais – foram mais prósperas, sob vários aspectos, do que outras comunidades.

CONSIDERAÇÕES GERAIS

John Stuart Mill, em Sobre os Limites da Autoridade da Sociedade sobre o Indivíduo, se desdobra sobre uma única preocupação, a de que o público interferisse de forma equivocada no particular, argumentando que os interesses individuais deveriam ser resguardados em função de que a sociedade, em sua autoridade, não teria conhecimento suficiente acerca das questões que envolvem cada um, naquilo que somente a este cabe decidir, para formular regras proibitivas. Esta preocupação enfim pertencerá, para Mill, não somente ao seu juízo sociojurídico de liberdade individual – também encontrada em seu ensaio Considerações sobre o Governo Representativo –, mas também será a base para a ideia de liberdade econômica do autor, claramente apresentada em sua obra seminal Princípios de Economia Política, cuja proposição irá instrumentar a Ciência Econômica pelo menos até as primeiras décadas do Século XX. Efetivamente, o liberalismo no século XIX ganhou proeminência, especialmente no âmbito econômico-político, se tornando um polo ideológico relevante.  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HUNT, E. K.. História do Pensamento Econômico: uma perspectiva crítica. 2ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.

MILL, John Stuart. O Governo Representativo. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981.

MILL, John Stuart. Sobre a Liberdade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

MILL, John Stuart. Utilitarismo. Porto: Porto Editora, 2005.

MULGAN, Tim. Utilitarismo. Petrópolis: Vozes, 2012.

[1] “O tema deste ensaio não é a chamada liberdade da vontade, tão lamentavelmente contraposta à maldenominada doutrina da necessidade filosófica; mas sim a liberdade civil, ou social: a natureza e os limites do poder que pode ser legitimamente exercido pela sociedade sobre o indivíduo” (Mill, 2011, p. 25).

[2] Hunt (2005, p. 179).

[3] “É melhor ser um humano insatisfeito do que um porco satisfeito; é melhor ser Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito. E se o tolo, ou o porco, tem uma opinião diferente, é porque eles só conhecem o seu próprio lado da questão. O outro partido da comparação conhece ambos os lados” (Mill. Utilitarismo, p. 57).

[4] Este entendimento de John Stuart Mill será a base, no século XX, para a concepção do austríaco Friedrich August von Hayek acerca do uso do conhecimento na sociedade.

[5] “Mill não entende por “individualidade” exatamente o que podemos entender hoje. ‘Autonomia’ e ‘autenticidade’ são termos mais precisos para nós, embora o próprio Mill não os utilize. A ideia central é a de se viver a própria vida de acordo com valores com os quais se identifica, ao contrário tanto de se viver uma vida escolhida por outrem ou de se fazer a escolha de maneira impensada. A vida humana só é verdadeiramente valiosa se for vivida da maneira certa” (Mulgan 2012, p. 43).

06/04/2014

POR UMA RESPOSTA DA ECONOMIA POLÍTICA

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 3:04 PM

ImagemDesde A República, de Platão, um dos principais exercícios intelectuais é a elaboração de modelos políticos e econômicos para os países, quiçá para o mundo. Diversas salutares discussões decorreram disso, mas também muita desgraça foi verificada na tentativa prática de transformar o modelo de sociedade. Hannah Arendt mostra muito disto em seu livro Origens do Totalitarismo, ao denunciar as incongruências do imperialismo e da própria loucura advinda do totalitarismo hitlerista e stalinista, que resultou em milhões de pessoas assassinadas.

De fato, a vontade de apresentar soluções para os problemas reais e circunstanciais da sociedade fez com que vários pensadores indicassem formas diferentes de política que adequassem melhor o mundo aos indivíduos ou à coletividade. Talvez grande quantidade dessas estruturas teóricas hoje faça parte efetiva do mundo, porque foi colocada em experimento e deu certo, ou esteja somente nas ideologias e nas cabeças em forma de utopia e de esperança, respectivamente. Ora, não é difícil encontrar defensores de um Estado monstruoso (verdadeiro leviatã), assim como é notória a advocacia de modelos onde o Estado tem ínfima participação na dinâmica social.

Talvez, um dos motivos para que o mundo não alcance um modelo teórico perfeito, que atenda a todas as pessoas, é o de que os interesses dos homens são muito conflitantes tanto na política como na economia, e em ambas concomitantemente. Quer dizer, a absorção da economia – algo que era inerente à vida privada – pela política pública, desde a segunda metade do século dezenove, gerou maior complexidade para que qualquer modelo fosse aceito de forma pacífica por todos. Sobrou para o mundo civilizado embarcar no modelo espontâneo do capitalismo – mesmo com seus notórios exageros –, mas depositando unicamente no Estado prerrogativas e atribuições sobre os caminhos a serem tomados rumo ao inalcançável (a ideia, no longo prazo, é insustentável) estado de bem estar social.

Mas isso apenas em teoria, também, pois, na prática, as forças das minorias e das maiorias continuam se debatendo em prol de um formato civilizacional que seja melhor para um grupo ou para o outro. Costuma-se dizer, por causa de Marx, que esse mote é o do conflito de classes, mas está evidente que as causas são mais profundas e menos objetivas do que isso. As ideias fundadas, desde Aristóteles (a quem não se deve atribuir culpa alguma), no finalismo (teleologia) e no consequencialismo fizeram brotar um pragmatismo insensível por um lado, o da política, e, por outro, um utilitarismo que apequena e animaliza o ser humano, o da economia. Daí que os governos e a própria sociedade – já que são a mesma coisa – se pautam consciente ou inconscientemente por essas crenças ao agir, e agem mal.

A Economia Política, num esforço conjunto com outras ciências e a filosofia, deveria produzir uma resposta melhor – retomando a ética dos economistas clássicos – para tal infortúnio da humanidade. É importante se pensar em algo positivo para o mundo (os ecologistas, por exemplo, só apresentam o medo como método), que traga um alívio para as relações dentro e entre os países. (Se a cultura da riqueza exacerbada como contorno da felicidade é algo esquisito, a ordem do consumo compulsivo entre as famílias de classe média é tão feio quanto. Se o poder exercido só se garante se vinculado ao poder econômico, servindo aos seus interesses, isto é uma tragédia. Mas também é patético o populismo degenerador exercido por líderes carismáticos em prol das massas. Sabemos que nas duas regras o povo ruminante é acaçapado).

Nesse sentido, estou convencido de que deve se fazer urgentemente uma separação entre vida pública e vida privada, entre vida política e vida econômica, de forma que cada agente (planejador, empresário, trabalhador) volte a atenção para seus objetivos verdadeiros. A política deve mirar os seus fins públicos, de modo a mediar paixões e interesses de forma sábia, pela constituição, pela lei, pela dignidade humana e pela ordem. Enquanto que a economia precisa atentar para suas instâncias competitivas, colaborativas, produtivas e distributivas, de modo a convergir demanda e oferta para um mercado justo (ajustado). Que se dê um basta à promiscuidade entre público e privado.

Indubitavelmente, a participação de todos os cidadãos nas duas esferas se tornaria mais livre e transparente. Com certeza, muitas questões transitariam entre uma e outra esfera, mas agora sem que uma se tornasse interveniente em relação à outra por motivações pessoais. Quando tudo é vida pública, misturando-se política e economia, não há tempo para a reflexão, não há tempo para a dúvida, não há tempo para a desburocratização do ser humano, existe apenas um tempo, o do dinheiro somado ao da sujeição. O dinheiro deixa de ser operacional – fruto da poupança e/ou da prudência – e nos remete para um fim somente, que é o da própria “felicidade” (ou ansiedade determinada pelo vazio existencial?) contida no desejo de ter coisas.

A oportunidade da Economia Política, destarte, é a de realizar uma cisão que liberte a economia – em termos liberais mesmo –, num mesmo processo que eleve os cidadãos aos campos do raciocínio público, do valor e da liberdade política. Acima dos seres racionais que são por nascença, o homem e a mulher são seres políticos – que são por vontade e escolha.

Por fim, a história de “esquerda versus direita” pode continuar sem embargo no âmbito das políticas democráticas de governo, no domínio das leis (defendidas ou denunciadas no legislativo), entretanto, que estas se concebam de um jeito que afetem o menos possível a vida privada dos indivíduos. Esta deve ser aceita publicamente como condicionada às preferências e decisões privadas e somente privadas. Assim, que as deliberações políticas – estejam elas ancoradas num Estado imenso ou num Estado mínimo – se traduzam realmente em benefícios comuns e somente quando forem causas comuns.

13/02/2014

METONÍMIA NA ECONOMIA

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 1:36 PM

ImagemMetonímia, de acordo com os gramáticos, é uma “substituição de uma palavra por outra, quando entre ambas existe uma proximidade de sentidos que permite a troca”. Essa troca, portanto, só é realizada entre palavras que apresentam entre si contiguidade de sentidos, quer dizer, proximidade, vizinhança. Por exemplo, na oração “o estádio aplaudiu muito os dois times” se verifica que estádio substitui torcedores, sendo a troca possível porque o estádio contém os torcedores. Entretanto, há um problema no pensamento metonímico quando este se generaliza na razão das pessoas, que passam a tomar indiscriminadamente o efeito pela causa ou as partes pelo todo. Não são poucos os que raciocinam assim.

Deveras, as ciências têm grande parte de culpa neste sentido. Ao generalizarem o particular, criam sugestões de verdades que, baseadas na autoridade científica, se tornam verdades inquestionáveis. A matemática garante a fidedignidade e as teorias se tornam o retrato ideal do que ocorre na realidade concreta. Daí que as pessoas passam a oferecer opiniões sobre todas as coisas do mundo tendo uma ou outra teoria que o sustenta em suas posições e soluções. Ademais, regras e leis são impostas em função dessa visão metonímica da vida e do mundo, enquanto que a ética e as liberdades vão perdendo espaço na sociedade e nas relações entre os seres humanos. Políticos, juristas e economistas, notadamente, gerem o processo social como se possuíssem todas as informações necessárias para produzir suas soluções ideais.

E é interessante que se fale em ideais, pois estou convencido de que toda política econômica é baseada nisto e na visão metonímica que a constitui. Basta notar que o modus operandi dos governos está sempre repousado em sua fixação em planejar e equilibrar. Planejamento pressupõe o uso de um conhecimento integral e absoluto acerca do processo social e, especialmente, da dinâmica econômica nos detalhes dos seus movimentos. A obsessão por equilíbrio significa, por sua vez, uma convicção anterior de que os sistemas econômicos funcionam na prática do mesmo modo que explica a teoria, sendo os constrangimentos fiscais e monetários nossos óbvios e intrínsecos instrumentos. Ora, nem o conhecimento é absoluto, nem o equilíbrio é plausível.

Hayek, em seu texto seminal “The use of Knowledge in Society”, comenta a impossibilidade de um cálculo econômico geral como operação exequível, seja por um planejador central, seja por qualquer cientista, e mostra como a crença no equilíbrio está tão distante dos fatos econômicos concretos, da mesma forma como um manual de voo está de uma situação real de pilotagem. Alguém voaria sob o comando de um piloto que só tem experiência com manuais? Fora os incautos e os suicidas, acredito que mais ninguém. Pois bem, nós vivemos sob o domínio arrogante de políticos e economistas que creem poder planejar, executar e equilibrar perfeitamente, com base num conhecimento incompleto do processo social e em manuais que defendem que todos os agentes possuem as mesmas informações convenientes.

É correto dizer que a origem da generalização do pensamento econômico metonímico, que soma as partes que consegue enxergar acreditando ser o todo, está numa convicção de que o coletivo existe como personalidade irredutível. Ou seja, que o indivíduo não existe, efetivamente. Que o distributivismo igualitário é um tipo de objetivo realizável. Que o sistema econômico deve ter em sua estrutura o valor da justiça social para a formação dos preços e para a produção de bens e serviços. Não obstante, o conhecimento formado nas relações business to business se tornou, destarte, irrelevante, sendo central mesmo o que advém das opiniões a respeito do comportamento do PIB e de outras informações denominadas “macroeconômicas”.

Finalmente, não há de se esperar que este estado de coisas seja modificado facilmente. O império dos planejadores e equilibristas não parece dar sinais de fraqueza e, no máximo, pode se prever uma substituição de sistemas mais metonímicos por outros menos metonímicos. Infelizmente, porque uma sociedade que tivesse compreensão de que o conhecimento imprescindível é justamente aquele formado pela ordem espontânea, quero dizer, pelo natural e disperso conhecimento dos preços de fatores, de bens e serviços num processo competitivo, uma sociedade assim seria aquela que desfrutaria verdadeiramente de tempo para justificar e consolidar suas liberdades e para trilhar um caminho de maior felicidade. Ouso dizer que um povo assim poderia chegar a tentar buscar o que os filósofos da ética das virtudes denominam de vida boa, que é aquela que, com efeito, está muito além da animalesca satisfação utilitarista.

Everaldo Leite é economista.

16/01/2014

O PAPEL MENOR DO ECONOMISTA NA POLÍTICA

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 10:16 PM

ImageA disciplina de Macroeconomia, inaugurada por Keynes, hierarquiza a atividade do economista como subordinada à política. Daí que, naturalmente, este profissional deverá ser cínico o quanto for preciso em sua operacionalidade técnica e burocrática para se manter ativo. Cínico, esclareçamos, porque vende sua competência a qualquer tipo de cliente, seja da direita ou da esquerda, ortodoxo ou heterodoxo, monetarista ou desenvolvimentista etc., bastando este pagar o preço apropriado. Não há nada de errado nisto, é claro, já que tal minoração dos profissionais de economia no campo do setor público é somente o resultado de uma escolha metodológica da categoria.

O lado positivo disso é que existem mecanismos disponíveis para todos os gostos, em termos de políticas fiscal, monetária, cambial e, porque não, industrial. Um governo expansionista, por exemplo, solicita aos seus economistas que descarreguem sobre a nação políticas generosas e facilidades e basta abrirem suas caixas de ferramentas e está tudo lá, tudo o que é necessário, como foi prescrito pelos papas do expansionismo. Efeitos colaterais aqui e ali: lançam mão de outras medidas para salvaguardar os interesses daquele governo e evidentemente para defender suas próprias reputações.

O grande engano, assim sendo, está em acreditar que esses economistas estão realmente agindo com vistas ao melhor para a sociedade. Existem os malucos, obviamente. Alguns se dizem portadores de virtudes que outros economistas não têm, pois são paladinos da “justiça social” e da “distribuição equânime”. Outros lutam há tantos anos contra moinhos de vento que não podem se desvencilhar de seus conceitos e preconceitos cultivados desde o tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça. Veja, por exemplo, o caso do Bresser-Pereira e sua obcessão com o câmbio. Ou o caso do Guido Mantega e sua antediluviana psicose desenvolvimentista.

Ora, os normais sabem que ideias têm consequências. Mas, se o risco maior é ficar desempregado ou marginalizado no caso de agirem de acordo com esses conhecimentos sobre causa e efeito econômicos, antes descer às instâncias dos lacaios. Portanto, deve-se dizer que o papel menor dos economistas na política é deliberado, um tipo de adaptação face à evolução forte do poder político e dos seus interesses sobre os cidadãos. Adaptação esta que também pode ser observada entre os cães (aliás, cinismo é um comportamento tipicamente canino) que vivem entre os humanos. Seus primos lobos, ao preferirem a liberdade, estão sendo extintos pouco a pouco.

15/01/2014

UNIDADE, LIDERANÇA E DESPOTISMO

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 12:49 PM

fundo-soberanoMuitos autores tratam do tema da liderança, a maioria de forma piegas, excessivamente didática ou, não raramente, apontando para metáforas insensatas. Líderes, na maioria dos casos, têm como núcleo dos seus interesses e sentimentos tão somente o “poder”, de forma a sempre buscar assegurar a viabilidade dos seus desejos na proporção da força positiva que exercem sobre seus seguidores. Os meios, portanto, para consolidar-se são a manutenção crítica da unidade de objetivos (mesmo que haja aí um pouco de utopia) e, evidentemente, a própria unidade valorativa do grupo, da equipe ou dos colegas.

Se o líder ambicionar apenas o aplauso da multidão, logo deteriorará o entusiasmo ao seu redor e sua liderança será passageira. O mesmo ocorrerá se sua liderança for somente um troféu, conquistado pelo esforço profissional. Ao chegar à posição de liderança (em funções gerenciais, diretivas etc.), seu objetivo terá sido alcançado e muito pouco conseguirá manter no longo prazo. Exclusivamente o “poder” é irredutível no alcance do verdadeiro líder e sua sustentação (a unidade) uma veraz vocação. “Uma pessoa com uma crença é um poder social igual a noventa e nove que possuem apenas interesses”, dizia John Stuart Mill.

Num primeiro momento, a unidade advém espontaneamente das instâncias dos indivíduos que se entregam a uma aliança. No processo, a liderança não é disputada, pois o líder se sobrepõe naturalmente ou é içado pelos parceiros pela notoriedade de suas ideias, princípios ou experiências. A unidade garantirá que a sua personalidade se justaponha à instituição que representa e o conjunto se sentirá bem ante a convergência de valores e à definição de escopos. Observa-se que lideranças artificiais, impostas aos indivíduos nalguma circunstância, precisam assegurar rapidamente a unidade provando serem portadoras de ideias, princípios e experiências afluentes à equipe (ou à empresa, ou à sociedade etc.) ou são detestadas categoricamente.

A responsabilidade pela manutenção do poder é meramente do líder. A direção tomada, destarte, tem muito a ver com a conduta, mas, especialmente, a ver com o que profere. O Cardeal de Retz afirmava que, para um líder, “é ainda mais prejudicial dizer tolices do que cometê-las”. Se o poder está vinculado à unidade, os sinais enviados – escritos, falados e comportamentais – precisam ser transparentes, não evidenciando minimamente dissimulações, ambiguidades ou torpezas imaturas, e precisam apresentar posições de vínculo, de amarração. Do contrário, a sua mensagem arruína o seu próprio comando, pois os indivíduos reagirão mal aos seus movimentos, produzindo um tipo de defensiva. Depressa, perderá o poder, depois, a função.

A maior virtude de um líder, entre tantas necessárias, está não tanto na inteligência, e sim na sabedoria, na filosofia que vivencia, que o faz se autoconhecer, e transmite. Sua crença deve ser no poder, porquanto suas atitudes devem obedecer a uma trajetória correta (e corrigível), uma linha de reputação clara, e perseguir o que se podem considerar bons atributos: temperança, coragem, humildade etc. A maior falha de um líder, logicamente, está na perda de credibilidade por este assumir um comportamento arrogante, soberbo, despótico. Esta quebra representa o declínio psicológico de ambos os lados da relação líder/liderados e concebe o deslocamento contrário entre objetivos e meios para atingi-lo.

Enfim, mesmo que os clichês publicados sobre liderança tragam visões fantasiosas sobre líderes e lideranças e seus autores vendam rios de livros, é relevante que os indivíduos mais apegados ao mundo real entendam a humanidade vulgar através do glamour dos líderes e saibam mais sobre a necessidade do poder e a crença no poder. Aos líderes de verdade, que não se submetem a ciclos alcantilados de personalidade, as causas de suas lideranças lhe são intrínsecas e os efeitos bem sabidos. Aos falsos líderes, aqueles não sábios, restam a lembrança das palavras de La Rochefoucauld: “É tão fácil nos enganarmos a nós mesmos sem percebê-lo como é difícil enganarmos os outros sem que eles percebam”.

PARA SER UM ANALISTA DA REALIDADE

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 12:39 PM

Eu roboJacques Rousseau, em seu Discurso Sobre a Origem da Desigualdade, dizia que “um pombo morre de fome perto de uma vasilha cheia das melhores carnes, e um gato sobre uma porção de frutas ou de grãos”. A razão disto é que esses animais somente conseguem viver em sua condição genética pré-programada e fazer aquilo que lhes é peculiar: gatisses e pombisses. Há dois séculos e meio, nos tempos de Rousseau, os gatos e os pombos agiam do mesmo modo, hoje também, e daqui a dois séculos e meio no futuro eles continuarão com os velhos hábitos. Ou, como conclui o filósofo, “um animal é, no fim de alguns meses, o que será toda a vida, e sua espécie, ao cabo de mil anos, o que era no primeiro desses mil anos”.

O ser humano também obedece a instintos, suas necessidades e deveres naturais. Entretanto, só o homem tem consciência exata de sua “vontade de potência”, que outro filósofo, Friedrich W. Nietzsche, acreditava – simplificando aqui – ser o magma de todo o nosso desejo. A vontade de potência, logo, é aquele combustível que gerará, no fim de qualquer processo, a autotransformação e a transformação do mundo ao redor do homem, segundo suas paixões e interesses. Nós, na condução de nossas próprias vidas, somos conscienciosos de sua importância, assim como consideramos que uns parecem ter mais vontade de potência do que outros, a julgar pelas suas ações, ideias e resultados.

De fato, a formação do indivíduo desde a infância implica na instauração colateral de entraves da personalidade, da consciência, e mesmo que a vontade de potência se faça presente, ela poderá ser racionada pelo espírito ou desperdiçada nas ilusões, o que resulta não raramente em grandes frustrações. Essas limitações são de espécie interna ou externa, quer dizer, psicológica ou física. Vejamos. Internamente, o sujeito pode ter se tornado altamente limitado em função de problemas nas primeiras fases de seu desenvolvimento, tendo sido oprimido demasiadamente ou desencorajado rudemente. Ou pode ter se tornado medianamente limitado, por motivações morais próprias, como aquelas pessoas que exigem do mundo arredio os valores que acreditam ser os melhores para si. Externamente, a questão se concentra nas deficiências físicas, mentais, doenças incapacitantes etc., que podem por fim dificultar ou inviabilizar a vontade de potência do espírito.

Indubitavelmente, o mundo é grande realidade para as pessoas cujas limitações são mínimas ou para aquelas que conseguem superar de motu proprio suas mais inconvenientes barreiras, reduzindo-as, contornando-as ou suprimindo-as efetivamente. O mundo concreto foi feito para as pessoas livres, virtuosamente livres. Aristóteles – o maior filósofo da antiguidade – tinha como núcleo de sua filosofia as três dimensões intrínsecas desta liberdade: o agir, o fazer e o conhecer. O homem livre age. O homem livre faz. O homem livre busca conhecimento. Exatamente, o homem livre é o ser humano internamente equilibrado, aquele que, ao agir, fazer e conhecer deseja alcançar fins valorosos para si e para a humanidade.

Dessa forma, agir é se reposicionar, é buscar sair de uma condição menos confortável para outra mais confortável, como afirmava o economista Ludwig von Mises. Esse agir propositado alude justamente um processo pessoal de escolha, que por sua vez é antecedida por uma certeza a respeito dos próprios valores e conhecimento do indivíduo. Por isso o agir sempre ambiciona ser algo bom. Em economia, por exemplo, seja comprando, trocando, vendendo, produzindo, poupando, investindo, consumindo, emprestando, tomando emprestado, exportando, importando etc.. Naturalmente, se as pessoas agem a sociedade age e autocoordena suas ações através das determinações individuais, como já refletia Adam Smith há mais de duzentos anos. A ação é o fundamento, quer dizer, é a própria vontade de potência de todo o processo social.

Finalmente, o que precisa ser dito é que, pensar em ser um bom Economista, um bom analista da realidade, é pensar em compreender, a cada tempo histórico, o fenômeno do agir humano – e desenvolver métodos para tanto – vinculando causas e efeitos, incentivos e comportamentos, cultura e economia, ética e economia, política e economia etc., sendo talvez conveniente levar em consideração o individualismo metodológico dos economistas austríacos. Maurice Allais, economista francês, declarava que “em economia tudo depende de tudo e tudo age sobre tudo”. Hayek, enorme referência entre os economistas austríacos, por sua vez, dizia: “Ninguém pode ser um grande economista sendo somente um economista”. Aliás, aditava que um economista que não é senão economista torna-se nocivo e pode constituir um perigo verdadeiro. O bom economista não se perde em miragens, simplismos e engodos.

OS SETE HÁBITOS DE UMA NAÇÃO QUE BUSCA O DESENVOLVIMENTO

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 12:30 PM

AlvoLiberdade. Não há como um país se desenvolver sem ter a liberdade como valor incondicional. As amarras do intervencionismo e do protecionismo retiram dos empreendedores (dos verdadeiros) a impressão de certeza futura. As escolhas, portanto, acabam sendo prejudicadas e, provavelmente, sendo despachadas para um tempo além do horizonte da conjuntura atual e a nação fica desservida de novos e importantes investimentos privados, da criação de novos empregos e da geração de nova renda.

Educação. Países com nível educacional alto costumam ser bem sucedidos. É uma pré-condição para o desenvolvimento, mas não isoladamente. Cuba tem bom nível educacional e, por falta de liberdade, é um país deploravelmente subdesenvolvido. O importante é que o ensino básico encaminhe o estudante para o ensino profissional e que o superior produza melhores pessoas para atuarem em setores sofisticados da sociedade. Formar professores para formar professores é uma patetice viciosa. A educação, de fato, irá ajudar os indivíduos a fazer melhores escolhas sociais.

Civilidade. Diferente da educação formal, a civilidade atua no âmbito da moral individual. As preferências das pessoas, que também irão atuar sobre suas escolhas, advêm especialmente de uma condição moral, ou seja, dos valores que se acredita serem aqueles que originarão um bem ao invés de um mal para o indivíduo e para o grupo social. A civilidade é a materialização da boa conduta moral da sociedade e da preferência pelos melhores valores para a convivência. Com grandeza moral o país se desenvolve.

Cultura. O que se acredita ser cultura no Brasil é apenas expressão cultural. Um teatro, um cinema, um espetáculo musical, estes eventos não são cultura. Cultura é uma percepção correta da realidade como ela é, e não como o Estado, a publicidade, a novela ou a imprensa quer que se acredite que ela seja. Enquanto o nosso país perde tempo discutindo se será ou não permitida a publicação de bibliografias não autorizadas, países como os EUA, Inglaterra e França divulgam o lançamento de centenas de livros sobre um mesmo assunto, proporcionando uma pluralidade de visões sobre as questões importantes da vida. Isto é cultura, aprofundamento é cultura.

Estado mínimo. Não há como uma nação enriquecer e promover distribuição num curto prazo. A sublevação do setor privado em função de um governo hiperbólico não passa de uma troca direta de um futuro próspero por um presente pródigo. Ao contrário do que se diz, no longo prazo não estaremos todos mortos, mas talvez mais pobres, ou seja, menos desenvolvidos. O Estado mínimo não deve ser pensado como sendo um “modelo neoliberal desumano”, mas a melhor alternativa para o estímulo à criatividade e ao avanço do empreendedorismo. Lembremos que o “futuro” da Venezuela já chegou.

Sentimento de justiça. Contratos precisam ser honrados num país que almeja o desenvolvimento. Corruptos devem ser punidos de forma a igualar pobres e ricos frente à justiça. Sem esta prática os indivíduos não conseguem discernir o que é sério e o que não é nas instituições, evitando elaborar projetos de investimento ou preferindo “ganhar” condescendências por outros meios, ilícitos.

Respeito às instituições. As instituições são resultado de convenções entre os indivíduos que habitam uma nação, consequência do processo social e as referências a priori que temos nas esferas pública e privada.  A subversão das instituições é uma atitude contrária à sociedade e leva o país a permanecer travado durante muito tempo, gerando incertezas fortíssimas.

Enfim, estes sete hábitos, que nada tem a ver com os sete hábitos daquele guru da alto-ajuda, poderiam ser experimentados pelo Brasil, já que isto é somente uma questão de decisão da sociedade. Uma sociedade que decide ser menos livre, menos educada, menos civilizada, pode decidir também ser o contrário disto e colher frutos muito mais interessantes.

14/01/2014

O DESESPERO DA FELICIDADE

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 3:32 PM
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ImageA felicidade é uma finalidade desde os tempos mais antigos do passado, mas os meios para consegui-la nem sempre foram os mesmos. Na Grécia antiga ela se chamava eudaimonia, de critérios doutrinários, e os meios para alcança-la dependiam dos dons que os deuses concediam a cada ser humano. Na Idade Média essa ventura, pode-se assim dizer, não era alcançada nesta vida, mas numa próxima existência, além da vida, a depender, é claro, da retidão do cidadão enquanto encarnado. Enfim, foi a modernidade quem trouxe uma nova forma de se buscar a felicidade, especialmente através do trabalho, da renda e do consumo.

Ora, sem trabalho e renda não há felicidade. Sem consumo, também não. O ser humano, portanto, passou, nos últimos trezentos anos, a ter objetivos bem claros durante sua vida e a pretender alcança-los, mesmo que somente para criar novos objetivos, alcançá-los, e assim sucessivamente. Os seus desejos se tornaram ilimitados e suas vontades insaciáveis, talvez por um instinto natural de melhorar progressivamente sua condição de vida, talvez porque a própria produção industrial de novos bens o levasse a tais novas sensações de satisfação e de busca destas. Quem sabe, as duas causas juntas, quiçá o marketing empresarial. Aparentemente, mesmo depois dos economistas se enfastiarem de expor sobre o assunto, o entendimento de escassez escapa às pessoas, como escapava ao perdulário Karl Marx, ou se conserva reprimido no inconsciente, para o deleite de marqueteiros, como Phillip Kotler.

Aliás, os meios para a felicidade podem advir também de incentivos governamentais, notadamente quando suas ações políticas geram orgias de consumo e de empréstimos. Um exemplo claro é o Brasil, onde a propensão marginal a poupar é menos do que uma ilusão enquanto a propensão marginal a consumir é uma suprema potência diante de uma migalha qualquer de renda acrescida ou perante um crédito fácil e barato. Não obstante a negação à prudência, entre 2010 e 2012 pôde-se verificar empiricamente entre os brasileiros a maior taxa de “felicidade interna bruta” (quando, sem duplo sentido, o Brasil virou um Butão) desde muitas décadas, por consequência de estímulos públicos à economia nacional, baseados last but not least no fortalecimento do consumo – tributos reduzidos – e nas políticas de aumento artificial da renda via salário mínimo e programas assistencialistas. Carro novo, fogão, geladeira, casa nova. Foi muita felicidade. Foi.

De fato, a felicidade vem se tornando um desígnio determinante para a espécie, operando sobre o agir, o fazer e o conhecer humanos. A indústria não produziria o Prozac se o mercado não o exigisse. Nem o Viagra, nem o Jack Daniels. Essa felicidade objetiva, ademais, tem atravessado as fronteiras dos valores arraigados das sociedades moralistas, como hoje se pode observar na busca nervosa e crescente de indivíduos ou de grupos peculiares por satisfações insólitas e extravagantes. São casos em que a busca da felicidade pelo outro pode vir a se tornar motivo de conflito social ou, subsequentemente, razão a ser defendida por políticos, partidos ou associações particulares. De tal modo, alguns tipos de felicidade podem ser uma finalidade não tão fácil de ser alcançada. Mas voltemos ao essencial das ocorrências habituais não excêntricas.

Na prática, a felicidade nunca foi considerada uma virtude, mas pode vir a se tornar um vício, espontaneamente. Como os mortais não se encontram além do bem e do mal, estão ainda sob a égide de uma natureza humana que prefere fortemente o prazer ao desconforto, podendo alguns, pelo exagero irrefletido, fazer desta busca a única veemência aceitável para si. Sem embargo, não é impossível se dizer que poderemos, em algum momento, viver – se já não estamos vivendo – sob o crivo de um super-hedonismo “pró-felicidade” que no longo prazo nos fará improdutivos, 1) induzindo jovens a não sair da casa dos pais no momento certo, prolongando indefinidamente as benesses do lar paterno; 2) lançando cidadãos às aquisições desenfreadas, anteriores aos ganhos equivalentes e 3) invertendo prioridades, submergindo a sociedade em desventuras de longo prazo em detrimento de imperativos imediatos etc. Vejamos. A felicidade moderna, materializada no consumo, se é algo bom, é alguma coisa a ser dosada pelos indivíduos e, no afã de se gerar uma sociedade boa, uma lição a ser elucidada pelos humanistas das ciências sociais, da economia, da filosofia etc.

Sim, o desespero da felicidade pode ser um objeto da Economia, isto é evidente. Por sua vez, acredito que o desafio atual é pensá-lo além do utilitarismo e das ordens sociais do tipo socialista, pois estas formas de se ponderar sobre o tema se situam obviamente nas agendas de pensadores do século dezenove e não nos pleitos “pós-modernos” do atual século. Ou, para finalizar com uma especulação, podemos acreditar que o capitalismo e o individualismo são, pura e simplesmente, a melhor resposta para a busca da felicidade, com todas as demandas materiais e imateriais devendo ser atendidas pelo mercado?

11/01/2014

NOVAS TAXAS DE JUROS PARA FCO 2014: É HORA DE INVESTIR?

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 5:07 PM

Com Leandro Reis Bernardes

Os juros do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste – FCO voltaram a sofrer elevações após uma significativa queda no final de 2012 e todo exercício de 2013, onde se operou com taxas entre 2,5% e 3,5% ao ano. Todavia, os novos encargos continuam sendo bastante vantajosos face aos juros de mercado e, notadamente, em relação às dificuldades de acesso a outras linhas subsidiadas de financiamento. A saber, para 2014 os encargos financeiros do FCO serão fixados de acordo com classificação de porte e modalidade de investimentos, conforme quadro a seguir:

FCO Empresarial 2014

Encargos financeiros (% a.a.)

Porte

B.K.

Demais

Capital de Giro

Faturamento até R$ 90milhões

5,30%

6,48%

10,59%

Faturamento acima de R$ 90milhões

7,06%

8,24%

12,36%

Independente das classificações de porte e modalidade de investimentos, em todos casos, os empresários poderão se beneficiar ainda com o bônus de adimplência de 15%, desde que a parcela da dívida seja paga até a data do respectivo vencimento.

A pergunta que muitos empresários fazem é se o momento é uma boa hora para investir. Não se deve deixar se seduzir apenas por taxas de juros atrativos, prazos e carências de médio e longo prazo. É preciso que os gestores identifiquem primeiramente junto aos seus respectivos negócios qual a oportunidade do investimento, ou seja, que carências, demandas reprimidas, inovações e / ou diferenciais competitivos serão potencialmente explorados em seus segmentos. Estes questionamentos e análises conseqüentemente os levarão a busca pelo crédito consciente, que é a premissa básica para quem busca um pleito de financiamento.

A economia brasileira não tem crescido de forma muito animadora, os custos de produção têm exercido alguma pressão nos lucros, o consumo se mostra menos vigoroso que nos anos anteriores, e, enfim, existe forte descontentamento nacional com a inflação. De fato, ao contrário do pessimismo defendido por alguns analistas, são especialmente nestes momentos de desaquecimento que empreendedores devem reforçar as estruturas dos seus negócios, reinventarem-se, identificar oportunidades de negócios, preparando-os para o novo ciclo de crescimento da economia, que cursa certamente muito além das expectativas de uma Copa do Mundo.

Ademais, na Região Centro-Oeste, notadamente no Estado de Goiás, o dinamismo da economia tem caminhado a passos largos em melhor direção. Em média, são constituídas anualmente 27 mil novas empresas goianas. O seu Produto Interno Bruto – PIB, ou seja, sua produção total de riquezas, praticamente dobrou em seis anos, passando de 57 bilhões de reais em 2006 para 112 bilhões em 2012. Seu PIB per capita, no mesmo período cresceu de R$ 9.956,30 para R$ 18.249,89, determinando um crescimento forte de sua renda, de seu consumo e de sua capacidade de modernização. Além disso, Goiás tem se apresentado ao restante do país como sendo uma renovada fronteira de desenvolvimento econômico e tecnológico.

Em boa hora, deve-se afirmar que as ameaças que pairavam sobre os incentivos fiscais foram adiadas, restabelecendo no Estado o ambiente de segurança jurídica anterior. Conforme as últimas informações, prevê-se o imediato aporte de novos grandes investimentos em 2014 que se encontravam suspensos em função das discussões acerca dos incentivos. Não é necessário afirmar que, com isto, uma série enorme de novas oportunidades irá motivar o setor empresarial. Ora, o FCO, historicamente, tem sido demandado fortemente em função destas oportunidades, gerando uma cadeia admirável de negócios sustentáveis no Estado de Goiás, tanto que nos últimos anos vem experimentando algumas dificuldades em assegurar recursos para todos os empresários que o buscam.

Finalmente, pode-se garantir que, não somente é hora de investir, mas é imprescindível que se retire das gavetas os projetos. Urgem as oportunidades e, devido à grande busca por recursos do FCO, é conveniente se antecipar aos concorrentes e apresentar suas propostas de investimentos.

Leandro Reis Bernardes é Consultor Especializado em Captação de Recursos Financeiros, Sócio Proprietário da Prátika Empresarial e Professor Universitário;

20/12/2013

UM NATAL NA COREIA DO NORTE

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 12:16 PM
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ImageA História deve ser mesmo “a ciência da infelicidade dos homens”, como já se escreveu. E o que seria lembrar Lenin, Stalin, Mao, Ho Chi Minh, Castro etc. que senão recordar uma história de tristeza, miséria e genocídio? O século vinte inaugurou o crime de massa como sistema de governo, rescindindo brutalmente com o que poderíamos chamar de um código mínimo dos direitos naturais da humanidade. O que se poderia refletir sobre isto hoje? A História, para ser uma ciência social fidedigna, precisa ser a memória do terror.

Não obstante, a América do Sul flerta atualmente com o comunismo. Sem a menor reserva, Venezuela, Bolívia, Equador, Argentina e Brasil divulgam através de seus líderes políticos et caterva as mesmas ideias infaustas que levaram a Rússia, a China, o Vietnã, Cuba e outros países a cometerem as maiores atrocidades, nunca antes imaginadas. Aos poucos, infelizmente, uma anomalia totalitarista vai se desenvolvendo e se organizando por aqui. A começar pela incitação à “luta de classes”, acendendo-se sistematicamente a animosidade entre grupos sociais: negros, brancos, homossexuais, religiosos, ambientalistas, produtores rurais, empregados, patrões etc. De fato, basta acessar as redes para verificar isso, elas estão coalhadas de novos rancores e invejas sociais.

Onde isso vai terminar? Não se pode saber facilmente, pois a história não é tão simples de se deduzir, se repetindo “a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, como pensava Marx. Ela pode se repetir numa tragédia ainda maior, isso sim. O “Livro Negro do Comunismo”, uma obra muito respeitada entre os cientistas políticos sérios, traz um juízo não desprezível sobre o quanto pode ser ruim. URSS: 20 milhões de mortos; China: 65 milhões de mortos; Vietnã: 1 milhão de mortos; Coreia do Norte: 2 milhões de mortos; Camboja: 2 milhões de mortos; Leste Europeu: 1 milhão de mortos; América Latina: 150.000 mortos; África: 1,7 milhão de mortos; Afeganistão: 1,5 milhão de mortos. Com o troféu mais sinistro indo para Pol Pot, que em três anos e meio assassinou aproximadamente um quarto da população total do seu país, o Camboja.

A dimensão criminosa do comunismo parece não demover os indivíduos da esquerda de suas obsessões revolucionárias, todavia. Os símbolos do comunismo podem ser encontrados em todos os lugares, nas camisetas, janelas, fachadas, bandeiras etc., tidos como sendo normais, habituais, ao contrário dos símbolos nazistas, estes corretamente banidos do mundo civilizado. Nos cursos das Ciências Humanas e das Ciências Sociais Aplicadas, também não é incomum encontrar disciplinas ou matérias relacionadas ao marxismo, socialismo e afins. Muitos professores – muitos mesmo – são adeptos não somente dessas matérias, mas da doutrinação direta de sua plateia.

A minha proposta, portanto, para este natal, será imaginar como passarão esta data os famintos e desesperados norte-coreanos. Sabemos que um cristianismo clandestino ainda é mantido por famílias de lá. Certamente queimarão uma pouca madeira, a guisa de fogueira, e assarão a última galinha não confiscada pelo governo, aquela que conseguiram esconder embaixo de umas pedras durante todo o ano. Não haverá presépio, lógico. Não haverá troca de presentes, é claro. Acenderão um pequeno toco de vela – na verdade, o que restou da única fonte de energia oferecida pelos burocratas do Partido Comunista – e farão uma oração precária, mas de muita fé para o menino Jesus. Não sei o que pedirão a Deus neste momento, ou se vão apenas agradecer a própria sobrevida esquálida frente ao regime de escravidão em que estão, mas sei que irão se ajoelhar, haja vista não haver cadeiras nem mesas para servi-los.

Não podendo socorrê-los efetivamente, apenas arrazoarei comigo mesmo sobre o que deverá estar acontecendo por lá. Sentimentos de solidariedade e de fraternidade, fazer o quê. Pela experiência dos últimos anos, aproveitarei mesmo uma boa ceia e um razoável vinho. Mas, desta vez, não sem antes pedir ao Nosso Senhor o mesmo que Castro Alves, no século dezenove, suplicou quando conjeturou sobre o Navio Negreiro: “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura… se é verdade, Tanto horror perante os céus? Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades!” Varrei o comunismo da Coreia do Norte, tufão!

05/08/2013

QUAL O FUTURO DOS BITCOINS?

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 7:37 PM

ImagemBitcoin é o dinheiro eletrônico que tem sido defendido por alguns indivíduos como sendo o possível substituto do dinheiro oficial. Assim como todas as moedas do mundo, não tem lastro. Seu valor oscila em bolsas virtuais que operam em vários países, sem nenhum acompanhamento dos respectivos Bancos Centrais ou fiscalização de qualquer comissão de valores mobiliários e análogos. Sua “produção” ocorre a partir de um processo complicado em sites da internet, onde acontece o que os usuários denominam sugestivamente de “mineração”. Sua cotação é conferida em dólar e o seu valor varia independentemente em cada uma dessas bolsas e casas de câmbio virtuais. Pela facilidade de transação ou transferência, o bitcoin entra e sai de qualquer nação sem necessidade de autorização e sem pagar impostos. Enfim, é o dinheiro preferencial dos “negócios” na chamada Deep Web, local obscuro da rede onde atuam criminosos e seus correspondentes.

Sua disseminação tem sido o sonho de liberais radicais, especialmente entre aqueles que desejam a eliminação total da presença do Estado em suas vidas. E, seguindo essa esperança utópica, têm propagado de forma espantosa nas redes sociais as “virtudes” do bitcoin como novo caminho para a sociedade livre etc. Pelo Youtube, por exemplo, se pode assistir dezenas de vídeos explicativos e que convidam a audiência a “ousar”, pela certeza de ganho no longo prazo e, não obstante, por ser uma antecipação ao que vai acabar ocorrendo de qualquer forma. Os chamados anarco-capitalistas defendem um ataque frontal aos governos, que para eles são “falsários” de moedas e os verdadeiros geradores de crises, via inflação da base monetária. Os mais alarmistas acreditam que cedo ou tarde se descobrirá que os bitcoins são um tipo de pirâmide ou bolha. Por sua vez, entre aqueles que debatem seriamente a viabilidade de uma nova moeda sem nacionalidade, que não esteja submetida à interferência de políticas quaisquer, a moeda virtual tem relevância e sua utilização em massa vem sendo considerada uma alternativa concreta.

De fato, mesmo que no Brasil a dispersão dos bitcoins ainda não tenha atingido um grau significativo, algumas mídias especializadas, como os sites da Exame e da Infomoney, por motivos variados, têm conferido destaque ao novo dinheiro. Entre os que acreditam no seu potencial estão os gêmeos Tyler e Cameron Winklevoss, que ficaram famosos ao processar Mark Zuckerberg, do Facebook. E, na Argentina, essa moeda já está se tornando uma opção para fugir das medidas estrambóticas do governo Kirchner. Os bitcoins podem ser entesourados no computador, negociados nos canais próprios espalhados pela rede ou ser comercializados pessoalmente, mas parecem estar longe de ser benquistos pela economia real, nas lojinhas da esquina, que além de desconhecê-los vêm aceitando fielmente há séculos a moeda oficial, mesmo aquelas que perdem o valor por qualquer motivo. Ademais, sem a regulação de um banco central, induz os seus potenciais usuários a uma série de incertezas vinculadas principalmente a uma intempestiva reação dos governos contra os bitcoins.

Entrevistei alguns economistas sobre o tema para esta coluna, questionando-os acerca do que esperar do bitcoin, se devemos levar a sério o seu futuro, quer dizer, se haveria alguma chance desse dinheiro virtual, em algum momento, realmente substituir as moedas oficiais. Tiago de Jesus Irineu, da UFG, versado em Escola Austríaca, acredita que um problema grave dos bitcoins seria a limitação predefinida de suas “emissões”. Até o ano de 2140 o número de bitcoins no mercado será de 21 milhões e mais nada. “Quando se chegar a esse limite, não será possível emitir mais bitcoins. Aceitando a hipótese de que as pessoas estão usando bitcoins como meio de troca, no momento em que esse limite chegasse passaríamos a viver no eterno risco de um processo deflacionário” afirma Irineu. Por outro lado, ele não acredita que seria de todo ruim que houvesse uma substituição da moeda oficial, mas que, “como seria necessário um grande nível de confiança nessa moeda, para que ela tivesse um valor de troca real, dificilmente isso deverá acontecer, ao menos no curto prazo”. Para Irineu, destarte, a transação dos bitcoins poderia ser praticável, mas ainda não é confiável.

É o que acredita também o economista e professor Maurício Faganelo, que assevera que “a regulação é frágil a respeito de tudo o que se refere à internet e principalmente a meios de pagamentos digitais, isto é, não há nenhuma referência no sistema financeiro nacional ou mesmo de órgãos reguladores de políticas monetárias quanto ao relacionamento entre essas moedas”. O meio como surge o bitcoin também traz certo desconforto para esse economista, já que o dinheiro é emitido sem um lastro real e não conversível facilmente. Além disso, referindo-se à crise dos últimos anos, expõe que o momento não é propício para se especular com a imaginação de uma moeda deste tipo, “o Euro já demonstrou a fragilidade de uma moeda única”. Para Faganelo, há o envolvimento aí de uma causa institucional proeminente, modelos como o Paypal podem ser bem aceitos, pois se colocam como meios de pagamento, lastreados em moeda estrangeira, “agora, o Bitcoin é conceito de moeda, e moeda é uma prerrogativa de Estado”.

Visão que é compartilhada pelo economista e professor Adriano Paranaíba, para quem o Estado detém o monopólio do dinheiro. “Mas o problema maior não é só a questão de ser monopólio, é o dinheiro ser emitido em caráter fiduciário, ou seja, pela confiança, e as reservas fracionárias ajudarem ainda mais este sistema monetário, que vem sendo o motivo de termos um mundo tão instável”. Para o economista existem duas opções: “ou voltamos ao padrão ouro, e o monopólio do estado servirá apenas para o controle do valor real da moeda em ouro, ou abre-se esse mercado, para as pessoas investirem, ou optarem em realizar suas transações com a moeda que sentir mais confiança”. Paranaíba acredita que “o bitcoin surge com esse objetivo, mas os Estados, assim que perceberem que o bitcoin vai se transformar em algo mais seguro, vão partir para a seara judicial para pôr fim no que seria uma luz no fim do túnel”. A segurança, ao contrário do que pensa Irineu, adviria justamente da limitação de bitcoins, pois os estados hoje em dia para financiar suas despesas imprimem papel moeda, expandindo perigosamente a base monetária da economia.

O economista Leonardo Zumpichiatti, mestre pela UNB, não acredita nos bitcoins como ferramenta de algum “movimento dentro do Estado burguês moderno para sua derrocada” – referindo-se aos defensores da extrema direita, acredito – mas que podem vir a ser viáveis num processo complexo de longo prazo, devendo, inclusive, ser entendido como uma “expressão das novas formas de organização da sociedade”. Para ele, “a moeda virtual, como no caso desses bitcoins, são a mesma expressão das moedas que conhecemos, ou seja, são todas virtuais, sem garantia nenhuma, apenas há fiduciaridade”. Ainda, Zumpichiatti entende que os bitcoins podem ser verificados como sendo “expressão de instrumento de troca comunitário, nesse caso, encerrados em comunidades virtuais, tal como os programas de milhagem das companhias aéreas ou mesmo as moedas que circulam em localidades”.

Enfim, a ideia de bitcoins substituindo moedas oficiais parece frágil, mas aceita por alguns especialistas, mesmo que com restrições. Na prática, todo o seu futuro depende da confiança que a sociedade poderá ter neles e na facilidade de transacionar no mundo virtual. Empresas que atuam no mundo real teriam de estar completamente abertas para receber e negociar com bitcoins e os governos precisariam se resignar frente ao fato. O problema é que isso está muito longe de acontecer, especialmente no caso da aceitação dos governos, e hoje, para quem quiser operar com os bitcoins, ainda vai ter de trabalhar a moeda nos campos especulativos, em compras de alguns tipos de mercadoria em lojas remotas, ou em negociações marginais na Deep Web. Os mais conservadores e prudentes, melhor aguardarem o desdobramento dos acontecimentos antes de sair comprando bitcoins por aí.

09/06/2013

DIABÓLICA COMÉDIA

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 11:04 AM

ImagemNapoleão Bonaparte teria dito que “a História é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo”, e Adolf Hitler que, “quanto maior a mentira, maior é a chance de ela ser acreditada”. Bem, os dois não costumam ser grandes referências morais, mas entendem muito sobre esse tema. Daí que uma das “mentiras de sucesso”, pode-se assegurar, é aquela dos marxistas brasileiros que faz os inocentes úteis acreditarem que, no capitalismo, para que alguém ou algum país se torne rico, necessariamente outro alguém ou país terá de ficar mais pobre. Quer dizer, se algum pipoqueiro começar a ascender em sua vida financeira, pelo trabalho e pela poupança, automaticamente se deve reconhecer que alguma pessoa no país está ficando mais pobre em função disso. Tal mentira se apega, outrossim, a um entendimento tortuoso sobre Pareto, para quem uma situação econômica seria ótima se não fosse possível melhorar a situação ou a satisfação de um agente sem degradar a situação ou a satisfação de qualquer outro agente econômico. Por fim, ela evoca concepções débeis, como as do economista alemão Friedrich List e do nosso contemporâneo Ha-Joon Chang, que defendem a falaciosa ideia de que os países ricos cresceram maliciosamente e “chutaram a escada” para que os pobres ficassem no chão da miséria e da dependência.

De fato, culpar o outro pelos seus próprios fracassos é um expediente muito utilizado no Brasil e os chamados estruturalistas ou desenvolvimentistas, de ontem e de hoje, se apegaram a isto como sendo o mais caro de seus axiomas ocultos – ou, melhor definindo, de seus engodos. Unindo marxismo com keynesianismo e “coitadismo” formularam grandes promessas de crescimento e distribuição tendo o Estado como a grande mola-mestra da economia, por fim corrompendo totalmente a lógica econômica liberal, para a qual o crescimento de uma economia de mercado depende de poupança, investimentos e produtividade. Desde os primeiros trabalhos da Cepal até os últimos lançamentos da escória pós-keynesiana brasileira (que, inclusive, se utiliza da estrutura e credibilidade do Ipea) o lixo ideológico do “pobre versus rico”, do “Estado versus empresário”, está presente em espírito e ossatura na preparação, elaboração e desenvolvimento de toda e qualquer política econômica – industrial, cambial, fiscal e monetária – que os países latino-americanos puderem suportar, notadamente o Brasil. Em termos concretos, desde meados do século passado, fundamentados no descalabro e no complexo de inferioridade, realiza-se por aqui a maior experiência de economia – ao lado da engenharia social – que já se ouviu falar desde a implementação do socialismo. Os resultados não poderiam ser outros que senão a formação de um país industrializado, mas decididamente subdesenvolvido econômica e politicamente, e o alargamento sistemático da ineficiência.

Hoje, depois de alguns anos de relativa separação entre Estado e setor privado, os políticos anacrônicos que estão no poder retornaram forçosamente para a ordem do dia as mesmas velhas lógicas “subdesenvolvimentistas” (e revanchistas), cujos fundamentos só podem ser encontrados em antediluvianos textos unicampistas e legitimados pelas rodas revolucionárias de acadêmicos bisonhos. O grosso do Governo Federal, logo, se agarra a um corpo teórico que, não raramente, dissimula a coerência das experiências do mundo real; hierarquiza os agentes econômicos de modo a atender sua ideologia; afiança a interferência do setor público em setores ou em situações econômicas, onde deveria imperar o sistema de preços; propaga que “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa” (frase muito proferida nos meios letrados, mas sem nenhuma prova considerável), na intenção de desvalorizar conceitos não “progressistas”; enfim, determina sua própria escala de valores e a impõe ao mercado, apostando equivocadamente em sua submissão. Destarte, os prognósticos mais sérios chegaram a um nível baixíssimo de otimismo.

Indubitavelmente, as teses que vem sendo recolocadas em prática no Brasil pela equipe econômica do governo não têm conseguido alcançar os efeitos magníficos tão esperados, tendo, na verdade, feito a economia paralisar quase completamente, com inflação indesejada e real ameaça de desemprego no médio prazo. Seu rascunho de política econômica se fixou exclusivamente no incremento do consumo através do crédito concentrado (sobretudo o imobiliário) e dos gastos públicos desordenados, criando – num primeiro momento – a falsa impressão de aumento sustentável da demanda, estimulando o investimento nos mercados mais próximos do consumidor final, mas perdendo eficácia e entusiasmo a partir de 2011, quando os empresários começaram a perceber o ardil. Ora, a insistência radical no incentivo ao crescimento da demanda – única arma do senhor Guido Mantega – somente agravou a situação, dilatando os efeitos agudíssimos de uma barafunda intrínseca aos tipos de preferências deste governo, que sabemos estar vinculado ao curtoprazismo e às eleições. Ademais, é evidente que a falta de coordenação natural do mercado e a retração prudencial da economia se devem ao fator “intervenção estatal”, não às crises americana e europeia, como talvez queiram fazer acreditar parte daquela esquerda esquizofrênica oficial.

Se existe alguma boa notícia para a nação, é a de que as políticas desse governo estão dando com os burros n’água mais cedo do que o esperado, o que o levará a tentar rever suas premissas absurdas. Ou não.

06/06/2013

COMUNISMO E FASCISMO ADVÊM DE UMA MESMA INSPIRAÇÃO

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 6:18 PM

Como se sabe, o Estado corporativo – o fascismo – foi a materialização de uma ideia de socialismo nacionalista, resultado pronto e acabado da síntese entre o racionalismo socialista e o romantismo nacionalista.

A Itália do socialista Mussolini, portanto, na fala dos próprios italianos da época, seria a “nação proletária”, endossada e aguardada pelos filósofos Benedetto Croce e Giovanni Gentile, pelo poeta Gabrielle D’Annunzio e, sobretudo, pelo romancista Alfredo Oriani, todos revolucionários e contrários ao que chamavam de “nações burguesas”.

Ou como o sindicalista Enrico Corredini também propunha, que “devemos começar reconhecendo o fato de que existem nações proletárias; quer dizer, existem nações cujas condições de vida estão sujeitas… ao modo de vida de outras nações, como as classes estão. Uma vez que isso seja entendido, o nacionalismo deve insistir firmemente nessa verdade: a Itália é, material e moralmente, uma nação proletária”.

Da nação proletária ao “fasci de combattimento, bastou-se levar a sério as convicções de Marx, para quem o controle dos meios de produção e a classe que exercesse esse controle dariam um padrão à história (uma classe derrubaria a antiga classe, uma nova ordem social substituiria a antiga ordem).

24/05/2013

PORQUE DEVEMOS DAR ATENÇÃO A ESCOLA AUSTRÍACA?

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 8:04 PM

ImagemHá um sentimento esquisito no ar, de deslocamento, especialmente agora, quando os países atravessam uma crise cujas consequências tem sido de grandes proporções. Como solução mais recorrente os governos – com poucas exceções – evocaram os keynesianos, pós-keynesianos e neokeynesianos, que vêm apontando falhas de mercado para todo lado enquanto propõem Estado para toda obra. Desde então, pela regra, (i) os bancos criam dinheiro de modo vertiginoso, para acolher devidamente o acréscimo artificial de demanda; (ii) o crédito é oferecido em volumes extraordinários, (iii) levando os consumidores a gastarem o que não pouparam; (iv) os empresários observam o ambiente e, diante de tamanhas intervenções e efeitos inesperados destas, (v) decidem restringir suas próprias ações e aguardam melhores oportunidades. Os resultados, longe do prometido pelos policymakers, têm sido instabilidade de preços, estagnação e, no médio prazo, desemprego.

Do outro lado, partidários da economia de mercado, os economistas da denominada Escola de Chicago, continuam defendendo que algo de bom sairá de seu modelo de equilíbrio, tendo ainda como princípio a maximização e como pressuposto a constância. Ora, seu ideário consiste exclusivamente em manter a tese de que o modelo de equilíbrio descreverá de forma muito aproximada a realidade, assim como explicita que, em todo o caso, as falhas do setor público serão sempre superiores às que se podem identificar no setor privado. Sendo assim, se a realidade é muito parecida com o equilíbrio competitivo, então o mercado real é eficiente no sentido paretiano e não é preciso intervir no mesmo, especialmente se sabendo – como efetivamente acontece – que a ação combinada de políticos, votantes e burocratas também não está isenta de graves falhas. Contraditória com a realidade, a Escola de Chicago tem se colocado em uma posição facilmente criticável.

Logo, não é por acaso que economistas e estudantes de Economia se pegam muitas vezes insatisfeitos com o que essa Ciência tem a oferecer quando precisam compreender diversos fenômenos econômicos e/ou necessitam revisar suas informações. Essa dificuldade advém não raramente desse verdadeiro obstáculo que é encaixar o que efetivamente ocorre na realidade prática, e seus desdobramentos, nas teorias econômicas disseminadas curricularmente pela academia e pela maioria dos livros-texto. Ou vice-versa, quando quer acomodar a presunção na experiência. Alguns lançam mão de métodos econométricos para extrair quaisquer informações relevantes, outros preferem abstrair fatores intrínsecos de desequilíbrio para enquadrar as circunstâncias, entretanto, percebem quase sempre que não há como oferecer uma interpretação específica para temas gerais. Daí, o sentimento esquisito no ar, de deslocamento.

Não que a Economia não tenha produzido alguns pressupostos fundamentais para se compreender diversas experiências que distorcem o processo social, a questão é que as verídicas deformidades conhecidas não são as mesmas que os teóricos neoclássicos, keynesianos e monetaristas apresentaram, por décadas, aos estudantes e aos profissionais que atuam no mercado. Nos modelos utilizados ainda se olha para o universo econômico da mesma forma como se faz nas ciências naturais, estabelecendo-se objetos que se movem de modo constante, num tempo linear, rumo a um fim conhecido ou altamente provável, o chamado “equilíbrio”. Numa tentativa contrária, talvez somente a Escola Austríaca de Economia ofereça melhores diagnósticos e respostas ao tratar o mundo de forma mais realista, dinâmica e incerta, conforme ele verdadeiramente se perpetra.

Devemos, assim sendo, dar atenção à Escola Austríaca de Economia, que vem demonstrando, com grande competência, que o que importa num processo social completo não é o homo oeconomicus – de comportamento probabilístico, maximizador e mecanizado – e sim o homo agens (caracterizado por Mises em seu livro Ação Humana), cujo “o incentivo para qualquer ação é a insatisfação, uma vez que ninguém age a não ser que sinta alguma insatisfação e avalie que uma determinada ação venha a melhorar seu estado de satisfação, ou seja, aumentar seu conforto, sensação de alegria ou de realização, diminuindo, portanto, seu desconforto, frustração ou insatisfação”, segundo o economista Ubiratan Jorge Iorio. Mas não somente isto, a Escola Austríaca traz à luz (i) uma teoria da ação frente à teoria da decisão dos neoclássicos; (ii) o subjetivismo frente ao objetivismo dos neoclássicos; (iii) a possibilidade de erro empresarial puro frente à racionalização a posteriori de todas as decisões; (iv) o caráter subjetivo que os custos têm frente ao conceito de custo objetivo neoclássico; (v) o formalismo verbal lógico frente à formalização matemática dos neoclássicos; (vi) sua conexão mais sólida da teoria com o mundo empírico etc., como também expõe o economista Jesus Huerta de Soto. Last but not least, amolda o estudo de Economia à dimensão economy, perdida desde a instituição da dimensão economics.

De fato, não há aqui como aprofundar em detalhes específicos acerca das conquistas da Escola Austríaca de Economia, o que deve ser realizado na prática por aqueles que pretendem alcançar novos conhecimentos no âmbito das Ciências Econômicas, todavia se pode garantir que, conforme o entendimento dos discursos de autores como Böhm-Bawerk, Mises, Hayek, Rothbard e Kirzner começam a fazer parte (metodológica ou teórica) de suas investigações a respeito da realidade econômica, certamente serão enormes as chances de que novas e mais adequadas conclusões se materializem, e se disso depender o seu trabalho (ou mesmo o seu emprego) ou a sua reputação, ao menos irá garantir uma veracidade muito menos questionável junto aos seus patrões, empregados ou amigos do que aquelas advindas das especulações e engenhos neoclássicos, marxistas ou keynesianos. Ora, na pior das hipóteses um leitor da Escola Austríaca se torna menos ignorante!

11/05/2013

RIQUEZA DAS NAÇÕES, POR J. M. NASSER

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 7:04 PM

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“Uma sociedade não pode ser rica antes de ser inteligente. Não pode existir uma economia realmente sólida e desenvolvida sem que haja uma elite cultural voltada para os bens espirituais, capaz de guiar, julgar e interpretar os esforços da comunidade”

Prof. José Monir Nasser

LIBERALISMO E NEOLIBERALISMO

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 6:49 PM

Prof. José Monir Nasser explica a diferença entre Liberalismo e Neoliberalismo

O MARXISMO-KEYNESIANO É A REGRA NO BRASIL

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 3:12 PM

ImagemNa última edição do Jornal Opção (O diz que diz dos economistas) o advogado Josias Cesalpino lançou alguns questionamentos importantes acerca de um texto meu de janeiro deste ano, especialmente quanto à expressão “marxistas-keynesianos” e em relação à minha afirmação de que estes e os clássicos nada têm de “realmente sólido para oferecer quando se pensa em modelos completos e eficientes”. Para ele Marx não teria em sua estrutura teórica e ideológica alguma coisa que demonstrasse um modelo prático de condução da economia, e muito menos poderia se dizer que Keynes fosse um marxista, já que ele mesmo se declarava um “economista burguês” (sic), não podendo assim se aceitar a existência da figura do marxista-keynesiano no sentido em que expus. A relevância de sua manifestação, entretanto, está de fato na comprovada confusão que muitos indivíduos fazem a respeito das teorias econômicas quando observadas à luz da experiência política. Grande parte, inclusive economistas de boa formação, enquadra ou estanca as teorias e os seus teóricos de forma compartimentalizada e pura, como se estes fossem quadradinhos que não se encaixassem em lacunas triangulares, o que é um enorme erro no âmbito dos fenômenos concretos. Vejamos.

Primeiramente, é preciso dizer que existem abismos que separam criadores de criaturas, mesmo que estes se expliquem numa relação íntima entre causa e efeito, entre meios e fins. Portanto, em hipótese alguma se deve fazer entender que Keynes e keynesianos são partes de uma mesma substância teórica ou ideológica, bancando a defesa do ideário deturpado dos últimos pelas propriedades e autoafirmações do primeiro. Se há semelhança, é a mesma que se pode identificar entre cobras corais verdadeiras e falsas, entre uma pintura de Paul Cézanne e os quadros vendidos em feiras, ou entre um livro de Umberto Eco e outro de Dan Brown. Dos marxistas em analogia com Karl Marx se precisa dizer o mesmo, sendo que neste caso o que há de bastante em comum é o mesmo ódio inspirador para a “luta de classes”. No Brasil, então, somente os exegetas deslumbrados não conseguem enxergar que os nossos keynesianos tupiniquins jamais foram apenas meros descendentes de Keynes, nem nossos marxistas tão somente uns admiradores da obra econômica e científica de Marx.

Essa paralaxe verificada em Cesalpino, sem dúvida, é uma consequência da falsa lógica semeada pela ciência econômica, ou melhor, da obsessão pedagógica dos acadêmicos das ciências sociais em fragmentar o conhecimento de tal maneira que atenda somente aos seus camuflados interesses ideológicos (pseudocientíficos) ou, para o mal absoluto da educação, às suas péssimas didáticas do ensino superior. Veja bem, durante todo o século vinte a teoria econômica geral, bem ordenada desde a idade média, se viu forçosamente dividida em macro e microeconomia, e com este novo formato assumiu com vigor todo o eixo dos estudos apresentados como relevantes, afastando o pensamento econômico tradicional, dialético, e colocando no lugar uma dualidade virtual positivista. O que no fim resultou na submissão da economia à política, criando e consolidando o artifício da chamada “política econômica”, mesmo que, infelizmente, em detrimento do padrão virtuoso produzido até então pela sóbria Economia Política. Atualmente não se pratica nas universidades mínimas análises de como a política deveria se harmonizar à economia, e sim julgamentos de como a economia deverá servir à política. Num ambiente desses, é claro, prospera e se dissemina unicamente o modelo econômico politicamente engajado, aquele que convirá aos interesses dos poderosos da vez.

Não obstante, é importante lembrar que essa mesma lógica também motivou a consignação de um fosso desmesurado entre as expressões inglesas economics e economy, essenciais para quem quer compreender a economia política real, e não unicamente a nominal. Ora, enquanto a primeira foi se tornando o paradigma da construção teórica dos micro e macroeconomistas, instituindo, assim, um homem racional sujeitado a um universo mecanicista, linear e determinado ao equilíbrio, a segunda, seria a que realmente estabeleceria novas frentes de estudo fundamentadas num homem de ação, que age permanentemente num universo não probabilístico, onde o equilíbrio é exclusivamente uma tendência. Hoje, que se saiba, somente a Escola Austríaca de Economia mantém esta concepção. No âmbito deprimente da Economia, da formalização excessiva, o mundo do homem racional copiou as sombras na caverna, e dali, dia após dia, se gera a especulação necessária para se eternizar esses tipos de debates, seja entre “keynesianos” e “monetaristas”, seja entre “marxistas” e “liberais” etc. Tal coisa não pode ser chamada de Economia Política, é somente circo.

Pela ótica da economia política, construída e tratada na prática, revelam-se as condições necessárias para a existência de marxistas-keynesianos, sendo que no Brasil, inclusive, só será possível verificar a existência destes, visto que o keynesianismo por aqui é exclusivamente uma ilusão acadêmica sujeitada aos interesses políticos da esquerda socialista que está no poder. Na verdade, esse “keynesianismo” do Guido Mantega não vai além de uma mutação do estruturalismo senil, que por seu turno deriva bastardamente da política original de Keynes e das premissas marxistas observadas em Caio Prado Júnior e explicitadas e incluídas nas obras de Celso Furtado, Raúl Prebisch, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Maria da Conceição Tavares e outros avatares das décadas de 1960 e 70. O próprio apoio teórico – nacional-desenvolvimentista – dessa escola à industrialização brasileira a partir da década de 1940 fazia parte de sua idealização marxista, da qual somente surgiria uma classe revolucionária após a industrialização (nunca teríamos uma revolução do proletariado rural), posto que, aos modos idiossincráticos, o alvorecer da indústria em países subdesenvolvidos só poderia ser motivado e efetivado aos cuidados de nosso muito conhecido e venerado Estado intervencionista.

Outrossim, se o estruturalismo foi criado para legitimar o modelo de industrialização na América Latina no século passado, mas sem conseguir chegar ao sonhado socialismo marxista, observa-se que o marxismo-keynesiano atual foi gestado durante o governo Lula e colocado em prática a partir de 2006 não menos do que como modelo político cuja finalidade só poderia ser a mesma do estruturalismo, a de domínio estatal irrestrito sobre a dinâmica econômica e política. Se alguém conhece a história, reconhecerá neste o estágio pré-fascista necessário para propagar a estatização em todas as dimensões do processo social e da escolha individual. Possuindo qualquer percepção política isenta, por sua vez, entenderá que o desígnio do marxismo não é mais a total extinção do Estado (um escopo de Karl Marx), mas justamente se utilizar deste como instrumento patrimonial de poder do partido associando-o ao próprio keynesianismo (estruturalista), à guisa de teoria de convalidação das decisões, pelo menos até que a política socialista de transformação socialista arremate seu processo de hegemonia cultural. Se nem Marx, nem Keynes poderiam conceber tal coisa, para os marxistas-keynesianos, ladinos e ambiciosos, o sucesso de tal modelo certamente estabelecerá o melhor dos mundos.

Ademais, o que denomino marxistas-keynesianos poderia designar corretamente como sendo kaleckianos, por referência ao economista polonês Michael Kalecki. Como se sabe, Kalecki elaborou uma teoria muito semelhante a do Keynes, talvez até mais sofisticada, porém baseada diretamente em Marx e não nos clássicos como laborou o economista inglês. A política resultante de suas ideias é diametralmente idêntica à keynesiana e seus objetivos revolucionários são os mesmos dos marxistas. Como a imprensa não especializada costuma não utilizar a expressão “kaleckianos” é natural que se utilize termos análogos, como faço, até mesmo para auxiliar na compreensão, lembrando ainda que no pronunciamento oficial se destaca dissimuladamente a expressão “keynesianos”, também talvez porque a mesma já se encontre erroneamente no inconsciente coletivo como sendo sinônimo de algo positivo para o desenvolvimento nacional ou como santo remédio ao “assombroso liberalismo”.

Enfim, do mesmo modo como ocorrerá com diversos “intelectuais” brasileiros, quando o advogado Josias Cesalpino acordar “virá me perguntar por onde andei no tempo em que ele sonhava”, isto é, enquanto confundia Keynes com keynesianos e Marx com marxistas, e fantasiava que a economia política estava circunscrita a eloquências vazias como esta: “é bem verdade que se pode dizer do inglês que ele nunca foi um insensível monetarista como Milton Friedman ou um ultraliberal como Hayek”. O peixe não vê mesmo a água onde está mergulhado.

Fonte: http://jornalopcao.com.br/colunas/economia-em-desequilibrio/o-marxismo-keynesiano-e-a-regra-no-brasil

O QUE É ESCLARECIMENTO? (RESENHA)

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 3:04 PM

Por Meirian dos Santos Sobrinho

KANT, Imamnuel (1724-1804). Resposta à pergunta: Que é esclarecimento? Textos Seletos. Tradução Floriano de Sousa Fernandes. 3 ed. Editora Vozes: Petrópolis, RJ. 2005. Pg. 63-71.

ImagemO ensaio “Resposta à pergunta: Que é esclarecimento?”, de Imamnuel Kant, é um texto breve, mas importante pela sua estatura entre os pensamentos filosóficos relevantes. Kant nasceu em Königsberg, na Prússia Oriental, e durante toda a vida jamais se afastou muito da sua cidade natal. Estudou na Universidade de Königsberg, começando com teologia, mas afinal se dedicando à filosofia, onde percebeu estar o seu verdadeiro interesse. Suas obras mais lembradas são “Crítica da Razão Pura” e “Crítica da Razão Prática”, onde aborda uma enorme variedade de temas. Em “Que é esclarecimento?” Kant, obviamente, busca fazer compreender o que vem a ser “esclarecimento” para o homem e seu valor para a maturidade individual e desenvolvimento coletivo.

O filósofo explora o tema de forma virtuosa, interpondo o modo do esclarecimento como aquele lampejo que divide intelectualmente o desenvolvimento do indivíduo, seja em qualquer momento, rompendo este com a “menoridade” e substituindo-a por um novo impulso decisivo, corajoso e de cunho próprio. “Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento”, afirma Kant, instituindo desígnio para despertar da preguiça e da covardia aqueles que continuam “de bom grado menores durante toda a vida”. Entretanto, ele mesmo mostra que essa nunca será uma tarefa fácil.

Há uma porção significativa de pessoas completamente imersas na menoridade, seja por instrução, seja, não obstante, por “amor” a tal condição. “É tão cômodo ser menor”, exemplifica o filósofo, “se tenho um livro que faz as vezes de meu entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciência, um médico que por mim decide a respeito de minha dieta etc., então não preciso esforçar-me eu mesmo”. Obviamente que, nesse grau de comodidade, torna-se cada vez mais difícil para a pessoa empregar seus próprios meios para compreender as coisas, preferindo entregar sua mente aos que assim o farão por ele. Por que pensar com sua própria capacidade intelectiva, se cientistas me mostrarão a verdade mais lógica, se artistas me aconselharão a melhor estética, se a coletividade irá determinar meu destino? “Preceitos e fórmulas, estes instrumentos mecânicos do uso racional, ou, antes, do abuso de seus dons naturais, são os grilhões de uma perpétua menoridade”, diz Kant.

De fato, a implicação mais evidente do paradigma da menoridade é a manifestação do preconceito, que substitui nas relações humanas e na própria mente o conhecimento do homem esclarecido. Sua robustez é tamanha que, no impedimento estrutural de se fazer valer na sociedade um pensamento crítico por parte das pessoas, somente um novo preconceito poderá substituir ou se conciliar ao preconceito já estabelecido. Se alguns homens, verdadeiras exceções, se desvencilham disto, é porque conseguem, mediante a liberdade, fazer um uso público de sua razão em todas as questões. Na verdade, para Kant, “o uso público de sua razão deve ser sempre livre e só ele pode realizar o esclarecimento entre os homens”.

Por sua vez, o uso público da razão é analisado pelo filósofo como sendo evocado e proposto para o grande público do mundo letrado, “por meio de obras escritas de acordo com seu próprio entendimento”. Por isso não existem restrições quanto a quem deverá utilizar sua própria razão crítica, sua sabedoria, seja empresário, trabalhador, cidadão ou sacerdote (ao qual Kant enfatiza), contanto que sua obra seja um resultado da liberdade “de dar conhecimento ao público de todas as suas ideias, cuidadosamente examinadas e bem intencionadas”. Verifica-se, destarte, uma preocupação fundamental de Kant em desvencilhar os indivíduos da catequização de tutores que são eles mesmos pessoas que não conseguiram escapar do “amor” à menoridade, isto é, ao não esclarecimento. Profere: “pois o fato de os tutores do povo deverem ser eles próprios menores constitui um absurdo que dá em resultado a perpetuação dos absurdos”.

Indubitavelmente, para nós do século XXI, não pareceria razoável perguntar se “vivemos agora uma época esclarecida”, haja vista que Kant, no século XVIII, acreditava que sua sociedade vivia naquele momento “em uma época de esclarecimento”. Porém, é possível se afirmar com certeza que ainda vivemos uma época de esclarecimento, havendo hoje uma multidão incontável de indivíduos completamente absortos no que se pode chamar de menoridade kantiana. De modo que, a despeito da disseminação da educação, da cultura, da informação e do conhecimento etc. entre os homens, somente temos “indícios de que agora lhes foi aberto o campo no qual podem lançar-se livremente a trabalhar e tornarem progressivamente menores os obstáculos ao esclarecimento geral ou à saída deles, homens, de sua menoridade, da qual são culpados”.

Ora, por tudo que foi dito, para Kant será formidável que governantes estimulem a busca do esclarecimento, pois é o pensamento livre que atua em retorno progressivamente sobre o modo de sentir da sociedade “e finalmente até mesmo sobre os princípios do governo, que acha conveniente para si próprio tratar o homem, que agora é mais do que simples máquina, de acordo com a sua dignidade”.

Enfim, o filósofo exemplifica em seu texto como que o salto de uma condição de menoridade para outra de maioridade (esclarecimento) pode se dar em múltiplos campos da ação humana, especialmente no âmbito do sacerdócio, mas destinando o seu raciocínio para as diversas leituras que se possam ser feitas sobre o tema. O ensaio é, incontestavelmente, uma forte referência para aqueles que procuram romper com estágios inferiores de seu desenvolvimento individual para crescer intelectualmente de forma substancial, cooperando finalmente com o próprio progresso e destino da coletividade, e rompendo com a velha lógica contrária.

Link para o texto: kant

03/05/2013

GRUPO DE ESTUDOS SOBRE ESCOLA AUSTRÍACA E PENSAMENTO ECONÔMICO LIBERAL

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 2:33 PM

CONVITE PARA PARTICIPAÇÃO DA I REUNIÃO DO GRUPO DE ESTUDOS SOBRE ESCOLA AUSTRÍACA E PENSAMENTO ECONÔMICO LIBERAL

Data e hora: Dia 01 de junho de 2013, sábado, das 9h00 às 11h30.
Local: CORECON, RUA 86, Nº 617, SETOR SUL, GOIÂNIA-GO.
Contato: Conselheiro Everaldo Leite – 96097237 ou 32015593 (SIC)
e-mail: everleit@hotmail.com

Pré-requisito para participação: Leitura do livro “Ação, Tempo e Conhecimento: A Escola Austríaca de Economia”, de Ubiratan Jorge Iorio.
Disponível para download no site do Instituto Mises Brasil

Atividade: Exposição de Tiago de Jesus Irineu e debate sobre a obra.

Plano de Trabalho do Grupo disponível em:

GRUPO DE ESTUDO SOBRE ESCOLA AUSTRÍACA E PENSAMENTO ECONÔMICO LIBERAL

02/05/2013

O DIZ QUE DIZ DOS ECONOMISTAS

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 2:01 AM

Por Josias Cesalpino de Almeida – Advogado

ImagemAo rever os arquivos, deparei-me com o artigo “A falsificação do discurso econômico” (Jornal Opção de 6/1/2013, edição nº 1957, página 12), do economista Everaldo Leite, que se reporta à matéria na qual a “Veja”, já no final de 2012, fez pilhéria: “Os economistas erram tanto quanto cartomantes e videntes”. A repercussão de matéria jornalística nada tem de mal em si mesma, sendo a mais das vezes de inegável proveito para os leitores em geral e útil para estudos mais percucientes ou prospectivos. Frase-janela da matéria: “Pensa-se comumente que os péssimos efeitos das políticas econômicas junto à sociedade foram determinados pelo ‘maldito mercado’, pela ‘terrível conjuntura internacional’, pela ‘alarmante safra ruim’, mas nunca por um entendimento acerca dos limites teóricos e técnicos do agente público em sua altivez deslumbrada’” (sic). Fica evidente que o objetivo do articulista era criticar a política econômica do governo (?) Dilma.

Nisto o autor obrou bem e acertou na mosca, pois, a rigor, nos mandatos lulopetistas inexiste política econômica digna dessa expressão. O que houve — e há — é uma governança totalmente errática. A grande “gestora” empurrada por Lula no eleitorado incauto ou portador de miopia ideológica vem fazendo um verdadeiro simulacro de governo. É uma desoneração tributária aqui, outra ali; uma manipulação de dados concernentes ao PIB (leia-se pibinho) mais à frente; acolá, um faz de conta que 71 reais ao mês, a título de esmola tem o condão de tirar alguém da miséria; um incessante inchaço da máquina administrativa, seja pelos 40 ministérios, seja pelo estímulo a aliados no Congresso, que também abusam das burras públicas. Enfim, os petistas no poder são um caso que já deveria ter sido estudado pelos cientistas sociais sérios, livres, sem amarras ideológicas, dotados de credibilidade [não vale a academia encabrestada, haja vista a sua propensão à benevolência com qualquer governo dito de esquerda]. O populismo, a demagogia, o aparelhamento do Estado, a fixação na ideia autoritária de controlar a imprensa [parte do sonho mal disfarçado de implantar aqui uma república “popular/sindicalista”], tudo isso deve ser objeto de vigilância e crítica permanente de todos os cidadãos que amam a liberdade neste país. E uma vez que não dispomos de uma oposição parlamentar séria e consistente, que a imprensa produza essa crítica.

Entretanto, espantou-me no artigo em questão a frase: “… nem a escola clássica, nem o marxismo-keynesiano têm algo realmente sólido para oferecer quando se pensa em modelos completos e eficientes…”. Parece haver duas proposições equivocadas nesse trecho: 1ª) o marxismo não propôs nenhum modelo no sentido do artigo em análise. Marx fez uma crítica dos fundamentos do capitalismo, da voracidade do sistema calcado na propriedade privada dos meios de produção e, principalmente, da apropriação da mais-valia. Vale dizer: Karl Marx discorreu sobre a estrutura e os fundamentos do sistema de produção fundado no excedente econômico em poder dos particulares, bem assim a respeito das consequências óbvias dessa acumulação, que levam a mais acumulação e assim sucessivamente. Nada disse sobre a forma de governo. Isto é coisa dos bolcheviques. Marx era um filósofo [da miséria, é verdade] que passou grande parte da existência à custa de Engels. Já Lênin e Trotsky eram revolucionários pragmáticos e… sanguinários. Por essa razão tornaram-se os pais do totalitarismo, digamos operacional (a revolução justifica tudo, os seus [dela, revolução] oponentes não precisam ser convencidos ou derrotados à base de argumentos e pleitos: devem ser aniquilados); 2ª) misturar Marx com Keynes não é apropriado. O economista britânico nunca foi sequer socialista. Na verdade, suas ideias salvaram o capitalismo graças à visão do estadista Franklin D. Roosevelt e seu New Deal, na década de l930. E foi muito azar — neste caso de todo o mundo ocidental — que os espertalhões do capital estéril não tenham permitido a adoção das suas propostas e argumentos expendidos por Keynes na Con­ferência de Bretton Woods, em 1944, quando foram criados o FMI e o Banco Mundial. Pelo menos os especuladores teriam ficado menos ameaçadores do que são hoje, menos extragalácticos em sua desmesurada ambição de ganhar sempre — o que até mesmo o capitalismo moderno já considera um exagero.

Portanto, o keynesianismo não significa nenhuma hipotética “tran­sição” para o socialismo, como parece temer o articulista. Key­nes nunca foi de esquerda — tanto assim que ele mesmo se definia como um “economista burguês”. O único fato comum entre Marx e o lorde britânico é que o primeiro faleceu em 1883, mes­mo ano em que nasceu o segundo. É bem verdade que se pode dizer do inglês que ele nunca foi um insensível monetarista como Milton Friedman ou um ultraliberal como Hayek. Ele procurou dourar a pílula do capitalismo. Como este é um sistema que produz crises esporádicas [e inevitáveis], Keynes sempre voltará à cena — mas sem nenhum perigo para os idólatras do vil metal.

Fonte: http://jornalopcao.com.br/posts/reportagens/o-diz-que-diz-dos-economistas

O TRIUNFO FRÁGIL DO ESTUDANTE THOMAS HERNDON

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 1:53 AM

Sobre a matéria Erro de Cálculo (erro-de-calculo)

ImagemNuma visão bem básica sobre o pensamento econômico atual se discernem três núcleos heterogêneos, um liberal, outro keynesiano e, residualmente, o marxista. Todavia, a hegemonia é a do ideário keynesiano, que, desde após a segunda grande guerra, outorga confessadamente ao Estado a prerrogativa de coordenar a economia através de políticas fiscal e monetária, especialmente para a superação de crises graves, mas sem nenhuma barreira para se impor na maioria dos casos o uso da política fiscal como ferramenta de incentivo à economia e, não raramente, a fixação do déficit público e a tolerância à inflação como efeitos aceitáveis face às esperadas implicações positivas de curto prazo. De fato, por motivos variados, o keynesianismo está em uma de suas fases de maior disseminação entre os países desenvolvidos e entre muitos em desenvolvimento.

O keynesianismo, logicamente, tem como patrono o economista John Maynard Keynes, que, em determinado momento na primeira metade do século vinte, resolveu criar sua própria revolução dentro do capitalismo, reservando ao Estado um papel não somente relevante, mas decisivo na condução da economia para o equilíbrio. Porém, sua perspectiva era essencialmente de curto prazo, unilateral (acreditava que a resposta para os desequilíbrios estava do lado da demanda) e baseada na inflexibilidade (para baixo) de preços e salários, quer dizer, tinha como propósito fazer oferta e demanda voltarem a se encontrar nos mercados, mas não através da mão invisível clássica, que para ele era insuficientemente eficaz para reestabelecer a economia (o doente), e sim por meio de um movimento anticíclico governamental de liquidez (injeção de adrenalina) na circulação econômica (na veia). Para Keynes o grande problema, aquele que realmente desarmonizava os mercados, seria o excesso de poupança, que fazia esvair o dinheiro de consumidores e investidores para lugar incerto e não sabido, causando recessões esporádicas e, ocasionalmente, depressões assombrosas.

Foram os keynesianos, que vieram evidentemente depois de Keynes, que criaram a ideia de que tal tipo de política poderia funcionar no longo prazo, em tempos de não crise ou de não recessão, gerando intervencionismos dos mais estapafúrdios e estatizações das mais funestas, como se, por um lado, o governo – Banco Central e equipe econômica – fosse um tipo de mecanismo que, ao medir a temperatura do paciente, pudesse administrar doses de algum ingrediente mágico – invocando inclusive entidades pagãs, como os “espíritos animais” – e antecipar os declives dos ciclos econômicos; e, por outro, fosse um primor em administração empresarial e eficácia. Nenhuma ideia poderia ser mais desonesta e as consequências mais nítidas das práticas keynesianas não poderiam ser outras que senão um aumento espantoso da inflação, do endividamento global, estagnação da indústria, crescimento vertiginoso das incertezas e, last but not least, uma recessão medonha que só foi possível ser superada após a introdução das políticas da senhora Thatcher e do senhor Reagan, na Inglaterra e nos EUA, respectivamente. Países como o Brasil, como se sabe, foram devorados na década de 1980 por uma crise fiscal e pelos juros da dívida externa, tendo de pagar as contas amargas de seu próprio keynesianismo jeca-tatu de segunda mão, chamado de “desenvolvimentismo”.

A vantagem do keynesianismo sobre o liberalismo não reside, entretanto, na supremacia da teoria ou na melhor execução prática da política econômica, mas no uso inequívoco de suas ideias populistas e, obviamente, no intuito eleitoral. Governantes que desejam se aparafusar no poder descobriram, há muito, que o expansionismo econômico alegra o coração dos pobres, que o intervencionismo regozija o bolso dos compadres e que a estatização contenta a sanha dos parceiros e correligionários políticos, e que, por isso mesmo, sempre precisariam de algum fundamento intelectual, técnico ou teórico, que garantisse ou avalizasse a prática. O keynesianismo, não por outro motivo, deu a esses elementos todo o arcabouço necessário para que pudessem ser irresponsáveis na proporção que ambicionassem ou ao menos até os limites do sustentável, quer dizer, forneceu toda construção teórica indispensável para que fizessem lançar efetivamente suas nações numa farra sem pejo, porquanto ideologicamente “irrepreensível”. Voltando-se para a sociedade, os discursos serão sempre alvissareiros – “fazemos isto em prol do crescimento, pela defesa do emprego e para levarmos justiça social aos mais carentes” –, moldados, todavia, em premissas claramente não compatíveis com a experiência do mundo real, onde poupança deveria vir antes do investimento, onde o emprego e os salários deveriam florescer a partir da produtividade, e onde o empreendedorismo competitivo seria o verdadeiro fiel da balança entre oferta e demanda.

Os movimentos contemporâneos da economia, que levaram os países desenvolvidos a uma crise vultosa, infelizmente foram entendidos pelos governos – incluindo os de países subdesenvolvidos, como o Brasil – como sendo a oportunidade para retomarem com força as ideias keynesianas e para colocarem em prática um conjunto de fantasias sociais que se encontravam esperançosas somente em suas agendas decrépitas, de folhas amareladas. Os EUA, por exemplo, não se enrubesceram em imprimir papel, com fisionomias famosas, num montante escandaloso; em salvar um bocado de empresas perdulárias; em diminuir sua taxa de juros em nível japonês; e em criar novos cacimbões de gasto público em pouquíssimo tempo, mergulhando de cabeça numa nova estação ancestral “yes, we can!”. Não obstante, boa parcela das nações se viu em condição (i)moral de fazer valer, após ter passado por um grave desequilíbrio gerado pela crise de 2009, um comportamento de adolescente rebelde que recebeu um “injusto” castigo dos pais, piorando indubitavelmente o ambiente futuro e as chances de melhores soluções. No Brasil, o frenesi desenvolvimentista do governo tem indicado, pelo menos para o setor empresarial nacional e internacional, que o País não anda em boa companhia e nem em boa direção.

Ora, como toda experiência política necessita antes (às vezes depois) de legitimações lógicas, não foi escasso o número de acadêmicos engajados a lançar, em periódicos e livros, toda uma ossatura keynesiana – e desenvolvimentista – de apoio à insensatez do setor público. Hoje, na verdade, qualquer questionamento sério contra o establishment tem perdido espaço nas discussões econômicas da hora, notadamente desde a premiação do novo defensor ferrenho do keynesianismo norte-americano, Paul Krugman, com o Nobel; ou tem sido tachado pelos democratas nacionalistas ingênuos de antipatriótico. No Brasil, uma enormidade de publicações também tem acompanhado a necessidade de fundamentação das políticas alucinadas do governo, mesmo que não consigam ir além de uma crítica engajada ao que designam como sendo “neoliberalismo”, nem alcancem a mínima veracidade em suas premissas e argumentos. Daí que, da mesma forma como havia no passado recente uma gama de artífices defendendo o livre comércio com argumentos crédulos, agora se tem que suportar dos keynesianos “progressistas” – e desenvolvimentistas – os textos mais caricatos que poderiam ser idealizados.

Talvez por isso que, para os keynesianos, se apresenta uma oportuna vitória ideológica quando se consegue, no âmbito técnico, desvendar-se algum erro na tese do mainstrean, como ocorreu com o estudante Thomas Herndon, que, de modo elegante, refutou o estudo dos economistas de Harvard, Reinhart e Rogoff, que buscava provar que o endividamento dos países em tempos de crise seria em regra prejudicial para as suas economias. Pela análise dos economistas se chega à conclusão que o crescimento econômico diminui drasticamente quando se aumenta o tamanho da dívida de um país acima de 90% do PIB, mas Herndon, ao tentar repetir o cálculo, descobriu que os professores de Harvard “acidentalmente” incluíram somente 15 dos 20 países estudados no cálculo-chave acerca do crescimento médio do PIB nos países com elevada dívida pública, deixando de fora Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá e Dinamarca. É óbvio que o resultado ficou comprometido e estava certo que os keynesianos iriam agora se comprazer com a derrapada dos incompetentes econometristas liberais de Harvard.

Contudo, embora os keynesianos possam improvisar o seu carnaval, é bom lembrar que o que o aluno Herndon conseguiu foi somente rejeitar os cálculos de uma única planilha de um único estudo específico, entre milhares de outros que provam cabalmente que, em qualquer tempo, o expansionismo desmedido resultará sempre em ajustes fiscais brandos ou abruptos no futuro, com desemprego e baixo crescimento, independente do que Keynes dizia sobre. Ademais, basta entender o que falam os autores liberais desde Adam Smith para notar que o triunfo do estudante é fragilíssimo e proporcionalmente insignificante, não chegando nem mesmo a arranhar os fundamentos econômicos relevantes e muito menos serve como contrapé para motivar maciços endividamentos de países que já se encontram bastante embaraçados por conta de decisões pretéritas. Por sua vez, é correto dizer que o fracasso do keynesianismo, este sim, descerá cedo ou tarde como um turbilhão colossal sobre a maioria dos países, cobrando novamente pela farra.

Fonte: http://jornalopcao.com.br/colunas/economia-em-desequilibrio/o-triunfo-fragil-do-estudante-thomas-herndon.

DEZ PRINCÍPIOS CONSERVADORES

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 1:36 AM

Imagem“Não sendo nem uma religião nem uma ideologia, o conjunto de opiniões designado como conservadorismo não possui nem uma Escritura Sagrada nem um Das Kapital que lhe forneça um dogma. Na medida em que seja possível determinar o que os conservadores crêem, os primeiros princípios do pensamento conservador provêm daquilo que professaram os principais escritores e homens públicos conservadores ao longo dos últimos dois séculos. Sendo assim, depois de algumas observações introdutórias a respeito deste tema geral, eu irei arrolar dez destes princípios conservadores”.

Russell Kirk – Dez Princípios Conservadores

– Russell Kirk (19 de outubro de 1918 – 29 de abril de 1994) foi um filósofo político, historiador, crítico social, crítico literário, e autor literário conhecido pela sua influência no conservadorismo americano durante o século XX.

27/04/2013

A FIGURA ESQUISITA DO MARXISTA-NEO-LIBERAL-KEYNESIANO

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 6:38 PM

ImagemHá alguns meses li uma declaração de um douto economista com formação na UNB se referindo pomposamente a ele mesmo como “neodesenvolvimentista”. Por pouco não regurgitei o jantar.

Mas isso acabou sendo bom, pois, apesar do refluxo, me fez lembrar como esse mesmo senhor, durante os anos FHC, sem nenhum constrangimento, se revelara um liberal de carteirinha, defendendo em palestras e artigos austeridades e cumprimento de metas como se fosse o mais ortodoxo dos economistas de Chicago.

Melhor ainda, me levou mais longe, à ponderação sobre como muitos espécimes da esquerda acadêmica brasileira, de todas as disciplinas, conseguiram facilmente, após a queda do muro de Berlim, vincular de modo arteiro suas convicções marxistas ou suas paixões estruturalistas ao forte pragmatismo que então passou a vigorar e a nortear todos os líderes ocidentais (isso durou pelo menos uma década), e como, no passo seguinte – a partir do segundo mandato do Lula –, puderam macunaimicamente voltar às origens mal-intencionadas e à advocacia das mesmas sandices antediluvianas sem levantar as mínimas suspeitas entre colegas e seguidores (haja bajulação nas redes sociais).

Cabe aí alguma tese sobre loucura acadêmica?

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