Everaldo Leite

16/07/2014

DAVID GILMOUR

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 2:58 PM

David Gilmour“Não há um lado escuro da lua, na verdade ela é toda negra”. Esta sentença, extraída de The Dark side of the moon, tão inequívoca aos profissionais da astronomia, estremeceu grande parte da juventude engajada da década de 1970, abduzindo-a definitivamente para dentro da realidade de nosso mundo não ideal. Não era o fim das ideologias, mas a Segunda Grande Guerra, os campos nazistas de extermínio, a bomba em Hiroshima, os crimes de Stálin, a Guerra do Vietnã, a viagem à lua, o Maio de 68, Woodstock, todos esses eventos finalmente puderam terminar de promover a ruptura a qualquer resquício de romantismo ingênuo ou de retorno às tradições. Não que se impetrasse um niilismo estrutural numa civilização ocidental há muito tempo em decomposição, mas ajudou a destroçar as últimas resistências alienadas dos domínios mentais e culturais, além de, ao mesmo tempo, introduzir a ideia de desordem absoluta, o caos literal, num espectro paradoxal de perfeita sintonia ecológica.

O cinismo, como mensagem de uma geração, como algoritmo de uma transformação, devastou as possibilidades alternativas e extinguiu o que ainda havia de esperanças tontas nos meios da grande arte. Deve-se depreender disto os motivos das frustrações desde os então recém-chegados bossanovistas aos retardatários de todo tipo e saudosistas. Mas foram os elementos ávidos por atenção, as guitarras, as baterias, os contrabaixos, os teclados, que enredaram as novas formas onde a subversão havia sido elevada a categoria de deusa e sua cornucópia de drogas, amor e morte prematura. A fuga da política “suja”, a aversão ao que não se traduzisse em liberdade, o asco à autoridade, a ameaça do apocalipse assegurado pela Guerra Fria, as contiguidades de uma sociedade hipócrita e covarde, o próprio show business, tudo estava em jogo e, consequentemente, no banco dos réus dos herdeiros legítimos da beat generation. O ímpeto juvenil questionava a si mesmo: Where has the feeling gone? – para onde o sentimento foi?

O desmoronamento trágico de certa forma foi tragado pelo pop, pela iconografia contemporânea e pelas forças das várias dimensões interessadas nesta absorção. Evidentemente, todos cansaram de ser loucos e preferiram se agarrar nos corrimãos de outras loucuras. Entretanto, quaisquer tentativas de apego aos modos tradicionais e românticos se tornaram improfícuas, senão caricatas. A argumentação artística andou em círculos, perdida em modelos reutilizados ad nauseam e nos convenceu em sua gastura de que o futuro é o da música de uma nota só harmonizada por um artigo sem substantivo que o acompanhe. Neste sentido, como afirma David Gilmour: now frontiers shift like desert sands – agora fronteiras mudam como areias do deserto, não se referindo apenas aos limites físicos dos países, mas notadamente aos contornos indóceis das veleidades humanas, na medida em que as esperanças de uns são as desilusões de outros, e na medida em que as dúvidas são frequentemente vencedoras sobre as verdades. Destarte, enquanto a poética grandiloquente do fim de toda aquela idiotice já se solidifica em museus, a pequena momice concebe alguma imitação escrava.

Everaldo Leite é mestrando em Filosofia.

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