Everaldo Leite

06/04/2014

POR UMA RESPOSTA DA ECONOMIA POLÍTICA

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 3:04 PM

ImagemDesde A República, de Platão, um dos principais exercícios intelectuais é a elaboração de modelos políticos e econômicos para os países, quiçá para o mundo. Diversas salutares discussões decorreram disso, mas também muita desgraça foi verificada na tentativa prática de transformar o modelo de sociedade. Hannah Arendt mostra muito disto em seu livro Origens do Totalitarismo, ao denunciar as incongruências do imperialismo e da própria loucura advinda do totalitarismo hitlerista e stalinista, que resultou em milhões de pessoas assassinadas.

De fato, a vontade de apresentar soluções para os problemas reais e circunstanciais da sociedade fez com que vários pensadores indicassem formas diferentes de política que adequassem melhor o mundo aos indivíduos ou à coletividade. Talvez grande quantidade dessas estruturas teóricas hoje faça parte efetiva do mundo, porque foi colocada em experimento e deu certo, ou esteja somente nas ideologias e nas cabeças em forma de utopia e de esperança, respectivamente. Ora, não é difícil encontrar defensores de um Estado monstruoso (verdadeiro leviatã), assim como é notória a advocacia de modelos onde o Estado tem ínfima participação na dinâmica social.

Talvez, um dos motivos para que o mundo não alcance um modelo teórico perfeito, que atenda a todas as pessoas, é o de que os interesses dos homens são muito conflitantes tanto na política como na economia, e em ambas concomitantemente. Quer dizer, a absorção da economia – algo que era inerente à vida privada – pela política pública, desde a segunda metade do século dezenove, gerou maior complexidade para que qualquer modelo fosse aceito de forma pacífica por todos. Sobrou para o mundo civilizado embarcar no modelo espontâneo do capitalismo – mesmo com seus notórios exageros –, mas depositando unicamente no Estado prerrogativas e atribuições sobre os caminhos a serem tomados rumo ao inalcançável (a ideia, no longo prazo, é insustentável) estado de bem estar social.

Mas isso apenas em teoria, também, pois, na prática, as forças das minorias e das maiorias continuam se debatendo em prol de um formato civilizacional que seja melhor para um grupo ou para o outro. Costuma-se dizer, por causa de Marx, que esse mote é o do conflito de classes, mas está evidente que as causas são mais profundas e menos objetivas do que isso. As ideias fundadas, desde Aristóteles (a quem não se deve atribuir culpa alguma), no finalismo (teleologia) e no consequencialismo fizeram brotar um pragmatismo insensível por um lado, o da política, e, por outro, um utilitarismo que apequena e animaliza o ser humano, o da economia. Daí que os governos e a própria sociedade – já que são a mesma coisa – se pautam consciente ou inconscientemente por essas crenças ao agir, e agem mal.

A Economia Política, num esforço conjunto com outras ciências e a filosofia, deveria produzir uma resposta melhor – retomando a ética dos economistas clássicos – para tal infortúnio da humanidade. É importante se pensar em algo positivo para o mundo (os ecologistas, por exemplo, só apresentam o medo como método), que traga um alívio para as relações dentro e entre os países. (Se a cultura da riqueza exacerbada como contorno da felicidade é algo esquisito, a ordem do consumo compulsivo entre as famílias de classe média é tão feio quanto. Se o poder exercido só se garante se vinculado ao poder econômico, servindo aos seus interesses, isto é uma tragédia. Mas também é patético o populismo degenerador exercido por líderes carismáticos em prol das massas. Sabemos que nas duas regras o povo ruminante é acaçapado).

Nesse sentido, estou convencido de que deve se fazer urgentemente uma separação entre vida pública e vida privada, entre vida política e vida econômica, de forma que cada agente (planejador, empresário, trabalhador) volte a atenção para seus objetivos verdadeiros. A política deve mirar os seus fins públicos, de modo a mediar paixões e interesses de forma sábia, pela constituição, pela lei, pela dignidade humana e pela ordem. Enquanto que a economia precisa atentar para suas instâncias competitivas, colaborativas, produtivas e distributivas, de modo a convergir demanda e oferta para um mercado justo (ajustado). Que se dê um basta à promiscuidade entre público e privado.

Indubitavelmente, a participação de todos os cidadãos nas duas esferas se tornaria mais livre e transparente. Com certeza, muitas questões transitariam entre uma e outra esfera, mas agora sem que uma se tornasse interveniente em relação à outra por motivações pessoais. Quando tudo é vida pública, misturando-se política e economia, não há tempo para a reflexão, não há tempo para a dúvida, não há tempo para a desburocratização do ser humano, existe apenas um tempo, o do dinheiro somado ao da sujeição. O dinheiro deixa de ser operacional – fruto da poupança e/ou da prudência – e nos remete para um fim somente, que é o da própria “felicidade” (ou ansiedade determinada pelo vazio existencial?) contida no desejo de ter coisas.

A oportunidade da Economia Política, destarte, é a de realizar uma cisão que liberte a economia – em termos liberais mesmo –, num mesmo processo que eleve os cidadãos aos campos do raciocínio público, do valor e da liberdade política. Acima dos seres racionais que são por nascença, o homem e a mulher são seres políticos – que são por vontade e escolha.

Por fim, a história de “esquerda versus direita” pode continuar sem embargo no âmbito das políticas democráticas de governo, no domínio das leis (defendidas ou denunciadas no legislativo), entretanto, que estas se concebam de um jeito que afetem o menos possível a vida privada dos indivíduos. Esta deve ser aceita publicamente como condicionada às preferências e decisões privadas e somente privadas. Assim, que as deliberações políticas – estejam elas ancoradas num Estado imenso ou num Estado mínimo – se traduzam realmente em benefícios comuns e somente quando forem causas comuns.

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