Everaldo Leite

13/02/2014

METONÍMIA NA ECONOMIA

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 1:36 PM

ImagemMetonímia, de acordo com os gramáticos, é uma “substituição de uma palavra por outra, quando entre ambas existe uma proximidade de sentidos que permite a troca”. Essa troca, portanto, só é realizada entre palavras que apresentam entre si contiguidade de sentidos, quer dizer, proximidade, vizinhança. Por exemplo, na oração “o estádio aplaudiu muito os dois times” se verifica que estádio substitui torcedores, sendo a troca possível porque o estádio contém os torcedores. Entretanto, há um problema no pensamento metonímico quando este se generaliza na razão das pessoas, que passam a tomar indiscriminadamente o efeito pela causa ou as partes pelo todo. Não são poucos os que raciocinam assim.

Deveras, as ciências têm grande parte de culpa neste sentido. Ao generalizarem o particular, criam sugestões de verdades que, baseadas na autoridade científica, se tornam verdades inquestionáveis. A matemática garante a fidedignidade e as teorias se tornam o retrato ideal do que ocorre na realidade concreta. Daí que as pessoas passam a oferecer opiniões sobre todas as coisas do mundo tendo uma ou outra teoria que o sustenta em suas posições e soluções. Ademais, regras e leis são impostas em função dessa visão metonímica da vida e do mundo, enquanto que a ética e as liberdades vão perdendo espaço na sociedade e nas relações entre os seres humanos. Políticos, juristas e economistas, notadamente, gerem o processo social como se possuíssem todas as informações necessárias para produzir suas soluções ideais.

E é interessante que se fale em ideais, pois estou convencido de que toda política econômica é baseada nisto e na visão metonímica que a constitui. Basta notar que o modus operandi dos governos está sempre repousado em sua fixação em planejar e equilibrar. Planejamento pressupõe o uso de um conhecimento integral e absoluto acerca do processo social e, especialmente, da dinâmica econômica nos detalhes dos seus movimentos. A obsessão por equilíbrio significa, por sua vez, uma convicção anterior de que os sistemas econômicos funcionam na prática do mesmo modo que explica a teoria, sendo os constrangimentos fiscais e monetários nossos óbvios e intrínsecos instrumentos. Ora, nem o conhecimento é absoluto, nem o equilíbrio é plausível.

Hayek, em seu texto seminal “The use of Knowledge in Society”, comenta a impossibilidade de um cálculo econômico geral como operação exequível, seja por um planejador central, seja por qualquer cientista, e mostra como a crença no equilíbrio está tão distante dos fatos econômicos concretos, da mesma forma como um manual de voo está de uma situação real de pilotagem. Alguém voaria sob o comando de um piloto que só tem experiência com manuais? Fora os incautos e os suicidas, acredito que mais ninguém. Pois bem, nós vivemos sob o domínio arrogante de políticos e economistas que creem poder planejar, executar e equilibrar perfeitamente, com base num conhecimento incompleto do processo social e em manuais que defendem que todos os agentes possuem as mesmas informações convenientes.

É correto dizer que a origem da generalização do pensamento econômico metonímico, que soma as partes que consegue enxergar acreditando ser o todo, está numa convicção de que o coletivo existe como personalidade irredutível. Ou seja, que o indivíduo não existe, efetivamente. Que o distributivismo igualitário é um tipo de objetivo realizável. Que o sistema econômico deve ter em sua estrutura o valor da justiça social para a formação dos preços e para a produção de bens e serviços. Não obstante, o conhecimento formado nas relações business to business se tornou, destarte, irrelevante, sendo central mesmo o que advém das opiniões a respeito do comportamento do PIB e de outras informações denominadas “macroeconômicas”.

Finalmente, não há de se esperar que este estado de coisas seja modificado facilmente. O império dos planejadores e equilibristas não parece dar sinais de fraqueza e, no máximo, pode se prever uma substituição de sistemas mais metonímicos por outros menos metonímicos. Infelizmente, porque uma sociedade que tivesse compreensão de que o conhecimento imprescindível é justamente aquele formado pela ordem espontânea, quero dizer, pelo natural e disperso conhecimento dos preços de fatores, de bens e serviços num processo competitivo, uma sociedade assim seria aquela que desfrutaria verdadeiramente de tempo para justificar e consolidar suas liberdades e para trilhar um caminho de maior felicidade. Ouso dizer que um povo assim poderia chegar a tentar buscar o que os filósofos da ética das virtudes denominam de vida boa, que é aquela que, com efeito, está muito além da animalesca satisfação utilitarista.

Everaldo Leite é economista.

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