Everaldo Leite

15/01/2014

PARA SER UM ANALISTA DA REALIDADE

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 12:39 PM

Eu roboJacques Rousseau, em seu Discurso Sobre a Origem da Desigualdade, dizia que “um pombo morre de fome perto de uma vasilha cheia das melhores carnes, e um gato sobre uma porção de frutas ou de grãos”. A razão disto é que esses animais somente conseguem viver em sua condição genética pré-programada e fazer aquilo que lhes é peculiar: gatisses e pombisses. Há dois séculos e meio, nos tempos de Rousseau, os gatos e os pombos agiam do mesmo modo, hoje também, e daqui a dois séculos e meio no futuro eles continuarão com os velhos hábitos. Ou, como conclui o filósofo, “um animal é, no fim de alguns meses, o que será toda a vida, e sua espécie, ao cabo de mil anos, o que era no primeiro desses mil anos”.

O ser humano também obedece a instintos, suas necessidades e deveres naturais. Entretanto, só o homem tem consciência exata de sua “vontade de potência”, que outro filósofo, Friedrich W. Nietzsche, acreditava – simplificando aqui – ser o magma de todo o nosso desejo. A vontade de potência, logo, é aquele combustível que gerará, no fim de qualquer processo, a autotransformação e a transformação do mundo ao redor do homem, segundo suas paixões e interesses. Nós, na condução de nossas próprias vidas, somos conscienciosos de sua importância, assim como consideramos que uns parecem ter mais vontade de potência do que outros, a julgar pelas suas ações, ideias e resultados.

De fato, a formação do indivíduo desde a infância implica na instauração colateral de entraves da personalidade, da consciência, e mesmo que a vontade de potência se faça presente, ela poderá ser racionada pelo espírito ou desperdiçada nas ilusões, o que resulta não raramente em grandes frustrações. Essas limitações são de espécie interna ou externa, quer dizer, psicológica ou física. Vejamos. Internamente, o sujeito pode ter se tornado altamente limitado em função de problemas nas primeiras fases de seu desenvolvimento, tendo sido oprimido demasiadamente ou desencorajado rudemente. Ou pode ter se tornado medianamente limitado, por motivações morais próprias, como aquelas pessoas que exigem do mundo arredio os valores que acreditam ser os melhores para si. Externamente, a questão se concentra nas deficiências físicas, mentais, doenças incapacitantes etc., que podem por fim dificultar ou inviabilizar a vontade de potência do espírito.

Indubitavelmente, o mundo é grande realidade para as pessoas cujas limitações são mínimas ou para aquelas que conseguem superar de motu proprio suas mais inconvenientes barreiras, reduzindo-as, contornando-as ou suprimindo-as efetivamente. O mundo concreto foi feito para as pessoas livres, virtuosamente livres. Aristóteles – o maior filósofo da antiguidade – tinha como núcleo de sua filosofia as três dimensões intrínsecas desta liberdade: o agir, o fazer e o conhecer. O homem livre age. O homem livre faz. O homem livre busca conhecimento. Exatamente, o homem livre é o ser humano internamente equilibrado, aquele que, ao agir, fazer e conhecer deseja alcançar fins valorosos para si e para a humanidade.

Dessa forma, agir é se reposicionar, é buscar sair de uma condição menos confortável para outra mais confortável, como afirmava o economista Ludwig von Mises. Esse agir propositado alude justamente um processo pessoal de escolha, que por sua vez é antecedida por uma certeza a respeito dos próprios valores e conhecimento do indivíduo. Por isso o agir sempre ambiciona ser algo bom. Em economia, por exemplo, seja comprando, trocando, vendendo, produzindo, poupando, investindo, consumindo, emprestando, tomando emprestado, exportando, importando etc.. Naturalmente, se as pessoas agem a sociedade age e autocoordena suas ações através das determinações individuais, como já refletia Adam Smith há mais de duzentos anos. A ação é o fundamento, quer dizer, é a própria vontade de potência de todo o processo social.

Finalmente, o que precisa ser dito é que, pensar em ser um bom Economista, um bom analista da realidade, é pensar em compreender, a cada tempo histórico, o fenômeno do agir humano – e desenvolver métodos para tanto – vinculando causas e efeitos, incentivos e comportamentos, cultura e economia, ética e economia, política e economia etc., sendo talvez conveniente levar em consideração o individualismo metodológico dos economistas austríacos. Maurice Allais, economista francês, declarava que “em economia tudo depende de tudo e tudo age sobre tudo”. Hayek, enorme referência entre os economistas austríacos, por sua vez, dizia: “Ninguém pode ser um grande economista sendo somente um economista”. Aliás, aditava que um economista que não é senão economista torna-se nocivo e pode constituir um perigo verdadeiro. O bom economista não se perde em miragens, simplismos e engodos.

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