Everaldo Leite

05/08/2013

QUAL O FUTURO DOS BITCOINS?

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 7:37 PM

ImagemBitcoin é o dinheiro eletrônico que tem sido defendido por alguns indivíduos como sendo o possível substituto do dinheiro oficial. Assim como todas as moedas do mundo, não tem lastro. Seu valor oscila em bolsas virtuais que operam em vários países, sem nenhum acompanhamento dos respectivos Bancos Centrais ou fiscalização de qualquer comissão de valores mobiliários e análogos. Sua “produção” ocorre a partir de um processo complicado em sites da internet, onde acontece o que os usuários denominam sugestivamente de “mineração”. Sua cotação é conferida em dólar e o seu valor varia independentemente em cada uma dessas bolsas e casas de câmbio virtuais. Pela facilidade de transação ou transferência, o bitcoin entra e sai de qualquer nação sem necessidade de autorização e sem pagar impostos. Enfim, é o dinheiro preferencial dos “negócios” na chamada Deep Web, local obscuro da rede onde atuam criminosos e seus correspondentes.

Sua disseminação tem sido o sonho de liberais radicais, especialmente entre aqueles que desejam a eliminação total da presença do Estado em suas vidas. E, seguindo essa esperança utópica, têm propagado de forma espantosa nas redes sociais as “virtudes” do bitcoin como novo caminho para a sociedade livre etc. Pelo Youtube, por exemplo, se pode assistir dezenas de vídeos explicativos e que convidam a audiência a “ousar”, pela certeza de ganho no longo prazo e, não obstante, por ser uma antecipação ao que vai acabar ocorrendo de qualquer forma. Os chamados anarco-capitalistas defendem um ataque frontal aos governos, que para eles são “falsários” de moedas e os verdadeiros geradores de crises, via inflação da base monetária. Os mais alarmistas acreditam que cedo ou tarde se descobrirá que os bitcoins são um tipo de pirâmide ou bolha. Por sua vez, entre aqueles que debatem seriamente a viabilidade de uma nova moeda sem nacionalidade, que não esteja submetida à interferência de políticas quaisquer, a moeda virtual tem relevância e sua utilização em massa vem sendo considerada uma alternativa concreta.

De fato, mesmo que no Brasil a dispersão dos bitcoins ainda não tenha atingido um grau significativo, algumas mídias especializadas, como os sites da Exame e da Infomoney, por motivos variados, têm conferido destaque ao novo dinheiro. Entre os que acreditam no seu potencial estão os gêmeos Tyler e Cameron Winklevoss, que ficaram famosos ao processar Mark Zuckerberg, do Facebook. E, na Argentina, essa moeda já está se tornando uma opção para fugir das medidas estrambóticas do governo Kirchner. Os bitcoins podem ser entesourados no computador, negociados nos canais próprios espalhados pela rede ou ser comercializados pessoalmente, mas parecem estar longe de ser benquistos pela economia real, nas lojinhas da esquina, que além de desconhecê-los vêm aceitando fielmente há séculos a moeda oficial, mesmo aquelas que perdem o valor por qualquer motivo. Ademais, sem a regulação de um banco central, induz os seus potenciais usuários a uma série de incertezas vinculadas principalmente a uma intempestiva reação dos governos contra os bitcoins.

Entrevistei alguns economistas sobre o tema para esta coluna, questionando-os acerca do que esperar do bitcoin, se devemos levar a sério o seu futuro, quer dizer, se haveria alguma chance desse dinheiro virtual, em algum momento, realmente substituir as moedas oficiais. Tiago de Jesus Irineu, da UFG, versado em Escola Austríaca, acredita que um problema grave dos bitcoins seria a limitação predefinida de suas “emissões”. Até o ano de 2140 o número de bitcoins no mercado será de 21 milhões e mais nada. “Quando se chegar a esse limite, não será possível emitir mais bitcoins. Aceitando a hipótese de que as pessoas estão usando bitcoins como meio de troca, no momento em que esse limite chegasse passaríamos a viver no eterno risco de um processo deflacionário” afirma Irineu. Por outro lado, ele não acredita que seria de todo ruim que houvesse uma substituição da moeda oficial, mas que, “como seria necessário um grande nível de confiança nessa moeda, para que ela tivesse um valor de troca real, dificilmente isso deverá acontecer, ao menos no curto prazo”. Para Irineu, destarte, a transação dos bitcoins poderia ser praticável, mas ainda não é confiável.

É o que acredita também o economista e professor Maurício Faganelo, que assevera que “a regulação é frágil a respeito de tudo o que se refere à internet e principalmente a meios de pagamentos digitais, isto é, não há nenhuma referência no sistema financeiro nacional ou mesmo de órgãos reguladores de políticas monetárias quanto ao relacionamento entre essas moedas”. O meio como surge o bitcoin também traz certo desconforto para esse economista, já que o dinheiro é emitido sem um lastro real e não conversível facilmente. Além disso, referindo-se à crise dos últimos anos, expõe que o momento não é propício para se especular com a imaginação de uma moeda deste tipo, “o Euro já demonstrou a fragilidade de uma moeda única”. Para Faganelo, há o envolvimento aí de uma causa institucional proeminente, modelos como o Paypal podem ser bem aceitos, pois se colocam como meios de pagamento, lastreados em moeda estrangeira, “agora, o Bitcoin é conceito de moeda, e moeda é uma prerrogativa de Estado”.

Visão que é compartilhada pelo economista e professor Adriano Paranaíba, para quem o Estado detém o monopólio do dinheiro. “Mas o problema maior não é só a questão de ser monopólio, é o dinheiro ser emitido em caráter fiduciário, ou seja, pela confiança, e as reservas fracionárias ajudarem ainda mais este sistema monetário, que vem sendo o motivo de termos um mundo tão instável”. Para o economista existem duas opções: “ou voltamos ao padrão ouro, e o monopólio do estado servirá apenas para o controle do valor real da moeda em ouro, ou abre-se esse mercado, para as pessoas investirem, ou optarem em realizar suas transações com a moeda que sentir mais confiança”. Paranaíba acredita que “o bitcoin surge com esse objetivo, mas os Estados, assim que perceberem que o bitcoin vai se transformar em algo mais seguro, vão partir para a seara judicial para pôr fim no que seria uma luz no fim do túnel”. A segurança, ao contrário do que pensa Irineu, adviria justamente da limitação de bitcoins, pois os estados hoje em dia para financiar suas despesas imprimem papel moeda, expandindo perigosamente a base monetária da economia.

O economista Leonardo Zumpichiatti, mestre pela UNB, não acredita nos bitcoins como ferramenta de algum “movimento dentro do Estado burguês moderno para sua derrocada” – referindo-se aos defensores da extrema direita, acredito – mas que podem vir a ser viáveis num processo complexo de longo prazo, devendo, inclusive, ser entendido como uma “expressão das novas formas de organização da sociedade”. Para ele, “a moeda virtual, como no caso desses bitcoins, são a mesma expressão das moedas que conhecemos, ou seja, são todas virtuais, sem garantia nenhuma, apenas há fiduciaridade”. Ainda, Zumpichiatti entende que os bitcoins podem ser verificados como sendo “expressão de instrumento de troca comunitário, nesse caso, encerrados em comunidades virtuais, tal como os programas de milhagem das companhias aéreas ou mesmo as moedas que circulam em localidades”.

Enfim, a ideia de bitcoins substituindo moedas oficiais parece frágil, mas aceita por alguns especialistas, mesmo que com restrições. Na prática, todo o seu futuro depende da confiança que a sociedade poderá ter neles e na facilidade de transacionar no mundo virtual. Empresas que atuam no mundo real teriam de estar completamente abertas para receber e negociar com bitcoins e os governos precisariam se resignar frente ao fato. O problema é que isso está muito longe de acontecer, especialmente no caso da aceitação dos governos, e hoje, para quem quiser operar com os bitcoins, ainda vai ter de trabalhar a moeda nos campos especulativos, em compras de alguns tipos de mercadoria em lojas remotas, ou em negociações marginais na Deep Web. Os mais conservadores e prudentes, melhor aguardarem o desdobramento dos acontecimentos antes de sair comprando bitcoins por aí.

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