Everaldo Leite

02/05/2013

O TRIUNFO FRÁGIL DO ESTUDANTE THOMAS HERNDON

Filed under: Uncategorized — Everaldo Leite @ 1:53 AM

Sobre a matéria Erro de Cálculo (erro-de-calculo)

ImagemNuma visão bem básica sobre o pensamento econômico atual se discernem três núcleos heterogêneos, um liberal, outro keynesiano e, residualmente, o marxista. Todavia, a hegemonia é a do ideário keynesiano, que, desde após a segunda grande guerra, outorga confessadamente ao Estado a prerrogativa de coordenar a economia através de políticas fiscal e monetária, especialmente para a superação de crises graves, mas sem nenhuma barreira para se impor na maioria dos casos o uso da política fiscal como ferramenta de incentivo à economia e, não raramente, a fixação do déficit público e a tolerância à inflação como efeitos aceitáveis face às esperadas implicações positivas de curto prazo. De fato, por motivos variados, o keynesianismo está em uma de suas fases de maior disseminação entre os países desenvolvidos e entre muitos em desenvolvimento.

O keynesianismo, logicamente, tem como patrono o economista John Maynard Keynes, que, em determinado momento na primeira metade do século vinte, resolveu criar sua própria revolução dentro do capitalismo, reservando ao Estado um papel não somente relevante, mas decisivo na condução da economia para o equilíbrio. Porém, sua perspectiva era essencialmente de curto prazo, unilateral (acreditava que a resposta para os desequilíbrios estava do lado da demanda) e baseada na inflexibilidade (para baixo) de preços e salários, quer dizer, tinha como propósito fazer oferta e demanda voltarem a se encontrar nos mercados, mas não através da mão invisível clássica, que para ele era insuficientemente eficaz para reestabelecer a economia (o doente), e sim por meio de um movimento anticíclico governamental de liquidez (injeção de adrenalina) na circulação econômica (na veia). Para Keynes o grande problema, aquele que realmente desarmonizava os mercados, seria o excesso de poupança, que fazia esvair o dinheiro de consumidores e investidores para lugar incerto e não sabido, causando recessões esporádicas e, ocasionalmente, depressões assombrosas.

Foram os keynesianos, que vieram evidentemente depois de Keynes, que criaram a ideia de que tal tipo de política poderia funcionar no longo prazo, em tempos de não crise ou de não recessão, gerando intervencionismos dos mais estapafúrdios e estatizações das mais funestas, como se, por um lado, o governo – Banco Central e equipe econômica – fosse um tipo de mecanismo que, ao medir a temperatura do paciente, pudesse administrar doses de algum ingrediente mágico – invocando inclusive entidades pagãs, como os “espíritos animais” – e antecipar os declives dos ciclos econômicos; e, por outro, fosse um primor em administração empresarial e eficácia. Nenhuma ideia poderia ser mais desonesta e as consequências mais nítidas das práticas keynesianas não poderiam ser outras que senão um aumento espantoso da inflação, do endividamento global, estagnação da indústria, crescimento vertiginoso das incertezas e, last but not least, uma recessão medonha que só foi possível ser superada após a introdução das políticas da senhora Thatcher e do senhor Reagan, na Inglaterra e nos EUA, respectivamente. Países como o Brasil, como se sabe, foram devorados na década de 1980 por uma crise fiscal e pelos juros da dívida externa, tendo de pagar as contas amargas de seu próprio keynesianismo jeca-tatu de segunda mão, chamado de “desenvolvimentismo”.

A vantagem do keynesianismo sobre o liberalismo não reside, entretanto, na supremacia da teoria ou na melhor execução prática da política econômica, mas no uso inequívoco de suas ideias populistas e, obviamente, no intuito eleitoral. Governantes que desejam se aparafusar no poder descobriram, há muito, que o expansionismo econômico alegra o coração dos pobres, que o intervencionismo regozija o bolso dos compadres e que a estatização contenta a sanha dos parceiros e correligionários políticos, e que, por isso mesmo, sempre precisariam de algum fundamento intelectual, técnico ou teórico, que garantisse ou avalizasse a prática. O keynesianismo, não por outro motivo, deu a esses elementos todo o arcabouço necessário para que pudessem ser irresponsáveis na proporção que ambicionassem ou ao menos até os limites do sustentável, quer dizer, forneceu toda construção teórica indispensável para que fizessem lançar efetivamente suas nações numa farra sem pejo, porquanto ideologicamente “irrepreensível”. Voltando-se para a sociedade, os discursos serão sempre alvissareiros – “fazemos isto em prol do crescimento, pela defesa do emprego e para levarmos justiça social aos mais carentes” –, moldados, todavia, em premissas claramente não compatíveis com a experiência do mundo real, onde poupança deveria vir antes do investimento, onde o emprego e os salários deveriam florescer a partir da produtividade, e onde o empreendedorismo competitivo seria o verdadeiro fiel da balança entre oferta e demanda.

Os movimentos contemporâneos da economia, que levaram os países desenvolvidos a uma crise vultosa, infelizmente foram entendidos pelos governos – incluindo os de países subdesenvolvidos, como o Brasil – como sendo a oportunidade para retomarem com força as ideias keynesianas e para colocarem em prática um conjunto de fantasias sociais que se encontravam esperançosas somente em suas agendas decrépitas, de folhas amareladas. Os EUA, por exemplo, não se enrubesceram em imprimir papel, com fisionomias famosas, num montante escandaloso; em salvar um bocado de empresas perdulárias; em diminuir sua taxa de juros em nível japonês; e em criar novos cacimbões de gasto público em pouquíssimo tempo, mergulhando de cabeça numa nova estação ancestral “yes, we can!”. Não obstante, boa parcela das nações se viu em condição (i)moral de fazer valer, após ter passado por um grave desequilíbrio gerado pela crise de 2009, um comportamento de adolescente rebelde que recebeu um “injusto” castigo dos pais, piorando indubitavelmente o ambiente futuro e as chances de melhores soluções. No Brasil, o frenesi desenvolvimentista do governo tem indicado, pelo menos para o setor empresarial nacional e internacional, que o País não anda em boa companhia e nem em boa direção.

Ora, como toda experiência política necessita antes (às vezes depois) de legitimações lógicas, não foi escasso o número de acadêmicos engajados a lançar, em periódicos e livros, toda uma ossatura keynesiana – e desenvolvimentista – de apoio à insensatez do setor público. Hoje, na verdade, qualquer questionamento sério contra o establishment tem perdido espaço nas discussões econômicas da hora, notadamente desde a premiação do novo defensor ferrenho do keynesianismo norte-americano, Paul Krugman, com o Nobel; ou tem sido tachado pelos democratas nacionalistas ingênuos de antipatriótico. No Brasil, uma enormidade de publicações também tem acompanhado a necessidade de fundamentação das políticas alucinadas do governo, mesmo que não consigam ir além de uma crítica engajada ao que designam como sendo “neoliberalismo”, nem alcancem a mínima veracidade em suas premissas e argumentos. Daí que, da mesma forma como havia no passado recente uma gama de artífices defendendo o livre comércio com argumentos crédulos, agora se tem que suportar dos keynesianos “progressistas” – e desenvolvimentistas – os textos mais caricatos que poderiam ser idealizados.

Talvez por isso que, para os keynesianos, se apresenta uma oportuna vitória ideológica quando se consegue, no âmbito técnico, desvendar-se algum erro na tese do mainstrean, como ocorreu com o estudante Thomas Herndon, que, de modo elegante, refutou o estudo dos economistas de Harvard, Reinhart e Rogoff, que buscava provar que o endividamento dos países em tempos de crise seria em regra prejudicial para as suas economias. Pela análise dos economistas se chega à conclusão que o crescimento econômico diminui drasticamente quando se aumenta o tamanho da dívida de um país acima de 90% do PIB, mas Herndon, ao tentar repetir o cálculo, descobriu que os professores de Harvard “acidentalmente” incluíram somente 15 dos 20 países estudados no cálculo-chave acerca do crescimento médio do PIB nos países com elevada dívida pública, deixando de fora Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá e Dinamarca. É óbvio que o resultado ficou comprometido e estava certo que os keynesianos iriam agora se comprazer com a derrapada dos incompetentes econometristas liberais de Harvard.

Contudo, embora os keynesianos possam improvisar o seu carnaval, é bom lembrar que o que o aluno Herndon conseguiu foi somente rejeitar os cálculos de uma única planilha de um único estudo específico, entre milhares de outros que provam cabalmente que, em qualquer tempo, o expansionismo desmedido resultará sempre em ajustes fiscais brandos ou abruptos no futuro, com desemprego e baixo crescimento, independente do que Keynes dizia sobre. Ademais, basta entender o que falam os autores liberais desde Adam Smith para notar que o triunfo do estudante é fragilíssimo e proporcionalmente insignificante, não chegando nem mesmo a arranhar os fundamentos econômicos relevantes e muito menos serve como contrapé para motivar maciços endividamentos de países que já se encontram bastante embaraçados por conta de decisões pretéritas. Por sua vez, é correto dizer que o fracasso do keynesianismo, este sim, descerá cedo ou tarde como um turbilhão colossal sobre a maioria dos países, cobrando novamente pela farra.

Fonte: http://jornalopcao.com.br/colunas/economia-em-desequilibrio/o-triunfo-fragil-do-estudante-thomas-herndon.

Anúncios

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: